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UM SÓCIO CAPITALISTA!

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UM SÓCIO CAPITALISTA!

Como muitos empreendedores, o carioca Americo Lobo, de 35 anos, anda atrás de recursos para investir em seu negócio, a Bio-Logica Sistemas, especializada em softwares de biometria. Com quatro anos de estrada, a empresa, que começou em casa, já emplacou sua tecnologia na confecção dos passaportes brasileiros, em iniciativas do Superior Tribunal Eleitoral para identificação de eleitores por impressões digitais e em sistemas da polícia para simular o envelhecimento de desaparecidos, entre outros projetos. Lobo quer mais. Mas há um empecilho: a falta de recursos para investir no negócio. “Precisamos de dinheiro para crescer, mas não tenho garantias para um financiamento bancário”, diz. Em busca de R$ 3,75 milhões para injetar no empreendimento, ele está negociando a venda de parte da empresa para um fundo de venture capital.

O sistema funciona assim: os fundos compram participações de companhias com grande potencial de crescimento na expectativa de, geralmente entre três e seis anos mais tarde, revendê-las com bons lucros a outras empresas, outros fundos ou até na bolsa de valores. Neste ano, os fundos de venture capital devem investir cerca de R$ 500 milhões no país – o triplo do valor de 2007, segundo estimativas da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abevcap). “Nunca houve tantos recursos disponíveis para o segmento”, diz o presidente da entidade, Luiz Eugênio Figueiredo. O problema para Americo e sua BioLogica é que, apesar de haver mais dinheiro na praça, os investidores continuam sem poupar rigor na seleção das empresas onde vão pôr dinheiro.De cada cem empreendedores que os procuram, dois, no máximo, conseguem o aporte.

Com a intenção de aumentar suas chances de passar pelo funil, Lobo participou este ano do chamado Venture Forum, promovido pela Finep, no Rio de Janeiro. Lá, depois de seis semanas de treinamento puxado, empresários têm a chance de apresentar seus negócios a dezenas de investidores. É uma oportunidade e tanto, mas também para chegar ali, a peneirada é grande. Das 400 empresas interessadas em participar do evento, apenas 16 foram escolhidas para fazer a apresentação.

Se você se interessa, saiba que a seleção, aberta o ano todo, começa pela internet. No formulário eletrônico, Lobo descreveu brevemente o negócio e explicou que usaria o dinheiro para investir em pesquisa e equipamentos, aumentar o quadro de funcionários de oito para 30 pessoas, aprimorar produtos e buscar novos clientes. O projeto convenceu e ele foi aprovado para a etapa seguinte do processo seletivo: a apresentação prévia do projeto,em fevereiro, para uma banca com 13 representantes da Finep e profissionais do mercado. Assim que parou de falar, o empresário foi bombardeado por perguntas sobre seus produtos, sua trajetória profissional, previsões de fluxo de caixa, aspectos financeiros e tecnológicos, estratégias de vendas e perfil da clientela.

Meia hora depois, a banca se reuniu para decidir se ele seguiria à etapa seguinte: o treinamento para a apresentação final aos investidores. Foram dez longos minutos de espera. “Tinha certeza de que não havia passado”, diz o empreendedor. Seu pessimismo fazia sentido. De saída, ele havia se atrapalhado nas projeções financeiras. “Por falta de conhecimento, exageramos nas previsões de rentabilidade e do investimento necessário”, diz.

Alguns avaliadores também haviam visto com maus olhos a grande diversidade de projetos da empresa. Eles iam de sistemas de coleta e processamento de impressões digitais, fotos e assinatura para passaportes à criação de imagens de rostos para o Second Life (espaço na internet que simula a vida real). Para piorar, Lobo foi pego de surpresa por perguntas sobre sua decisão de deixar o emprego de dez anos na empresa de informática do pai para criar a BioLogica em busca de autonomia para desenvolver novas tecnologias. Motivo do susto: a reviravolta profissional é um assunto delicado por ter causado, num primeiro momento, mal-estar na família.

Mas, para surpresa do empresário, a BioLogica foi aprovada.”Ele tinha potencial para atrair investidores, com boa tecnologia e bons clientes, como a Itautec”, justifica Cláudio Barbosa, um dos analistas da Finep responsáveis pela seleção. A história de vida de Lobo também lhe rendeu pontos.”Ele deu mostras de espírito empreendedor ao apostar na própria empresa, quando poderia muito bem ter se encostado no negócio do pai”, diz Barbosa.

Uma semana depois, Lobo teve o primeiro de uma série de seis encontros de treinamento. Contou com dois mentores, Barbosa e Alexandre Souza, da Rio Bravo, a gestora de fundos do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco. Pela frente, muito trabalho para preparar a apresentação de forma concisa e convincente. No fórum, os empreendedores têm míseros 12 minutos para abordar a história da empresa, o perfil de sua equipe, seus produtos, clientes, diferenciais em relação à concorrência, característica do mercado, projeções de receita e lucro e utilização prevista para os recursos solicitados.

CAPITÃO NASCIMENTO

Logo na primeira reunião, a dupla de mentores expôs os pontos que Lobo precisaria aprimorar para aumentar as chances de vender seu peixe. Não demorou para o “aluno” descobrir por que Barbosa tinha o apelido de Capitão Nascimento, o policial durão do filme Tropa de Elite .”Ele foi bem severo nas críticas”, diz Lobo. O “capitão” rebate: “É preciso colocar a empresa na real, e rápido!”. Os mentores foram logo colocando o dedo na ferida. Questionaram o projeto que previa a criação de imagens para o Second Life, desenvolvidas com base nos softwares de reconstituição facial.”Não dá para vender tanto para internautas do Second Life como para grandes empresas. É preciso ter foco num público alvo”, afirma Barbosa.”É importante saber para onde canalizar os esforços, já que os recursos são limitados”, complementa Souza.

Por conta dos comentários, Lobo riscou, por enquanto, o Second Life de sua vida. Caso feche a parceria, só vai retomá-lo se os gestores do fundo aprovarem a idéia. Aprendeu que, se quiser mesmo um sócio capitalista, perderá autonomia na definição dos rumos do negócio. “É um preço que terei que pagar”, diz. “Se queremos os recursos, precisamos estar dispostos a abrir mão de projetos de maior risco.”

Ele também revisou suas projeções financeiras, que desconsideravam custos importantes, como os gastos de expansão da equipe. Com a ajuda dos mentores refez as contas, incluindo todas as despesas. E afinou as projeções de faturamento com previsões de compras da clientela. Agora sim ele tinha dados mais confiáveis para convencer os investidores de que, com o aporte, o faturamento anual saltaria em cinco anos de R$ 1 milhão para cerca de R$ 25 milhões. Em tempo: a falta de traquejo com as finanças não é um problema exclusivo de Lobo. Longe disso. “Entre os empresários da área de tecnologia existem muitos cientistas que, mesmo capazes de criar algoritmos complicadíssimos, não sabem a diferença de juros simples e compostos”, diz Souza.

Com as projeções financeiras em ordem, Lobo dedicou-se à organização dos dados para apresentar aos potenciais investidores. Sim, porque ter as informações na ponta da língua não basta. É preciso apresentá-las de forma apetitosa o suficiente a ponto de, nos parcos 12 minutos, despertar o interesse dos fundos para levar adiante as conversas e chegar, finalmente, a uma parceria. “É como no cinema: não adianta ter um filme excelente se não fizer um trailer que incentive a platéia a ir vê-lo”, diz o analista de projetos da Finep André Calazans.

Para aumentar as chances de levantar a platéia, Lobo recorreu a exercícios de voz, com aulas de canto e videoclipes – tudo garimpado na internet. “É para treinar falar alto com boa entonação”, disse, na véspera da apresentação, enquanto, cantarolando, mostrava um clipe do cantor americano Lenny Kravitz. Apesar do treino – só na véspera, já havia ensaiado a apresentação cinco vezes de cronômetro na mão – Lobo estava decidido a ler o que tinha a dizer.”Prefiro não improvisar para evitar o risco de esquecer algo importante ou estourar no tempo.”

Na manhã seguinte, a estratégia recebeu cartão vermelho do Capitão Nascimento, digo, Barbosa. Durante o último ensaio, já na sala da apresentação, o mentor não gostou do que viu e soltou os cachorros. “Ele me deu uma baita bronca quando li o texto”, diz o empresário. O capitão justifica: “A leitura dá a impressão de que o empresário não entende do próprio negócio”. Resultado: enquanto os outros 15 empreendedores almoçavam no hotel do evento, Lobo continuava ensaiando – desta vez, sem direito a cola.

Duas horas mais tarde chegava a hora. De terno e gravata – em vez do jeans da véspera – encarou o público de 110 pessoas com a ajuda apenas da apresentação em Powerpoint. De voz firme, deu conta do recado em 10 minutos e 58 segundos, sem deixar de abordar nenhum ponto previsto. Da platéia não se notava que, como contou mais tarde, apoiava as mãos na bancada para disfarçar a tremedeira. Assim que deixou o microfone, ele correu para o abraço. Foi um abraço de verdade no Capitão Nascimento.”Agradeci a bronca”, diz. O mentor aprovou o desempenho do pupilo: “Baixou o exu na hora: ele foi bem!”

No coquetel de encerramento do fórum, Lobo foi procurado por representantes de três fundos de investimento, cujos nomes, como é de praxe no meio, prefere não divulgar. Com um deles engatilhou as negociações para um possível aporte. Se a parceria vai sair ainda não se sabe, pois ela depende de várias outras reuniões. Mas uma coisa é certa: a empresa amadureceu com o processo. “Aprimorei muito a visão estratégica e o acompanhamento financeiro do negócio.” Sinal de que todo o esforço valeu a pena.

Se você se interessa em percorrer o mesmo caminho da BioLogica, saiba que o Venture Forum da Finep ocorre uma vez por ano e é destinado a empresas que buscam aportes de até cerca de R$ 10 milhões. Quem quer quantias menores, de até cerca de R$ 2,5 milhões, também pode participar do Seed Forum, com quatro edições anuais.

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