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Trem corta cidades, fazendas e 'projetos' e divide opiniões

Valor Econômico

Trem corta cidades, fazendas e ‘projetos’ e divide opiniões

Samantha Maia, de São Paulo, Guaratinguetá e Jundiaí

Mais rapidamente que a conexão entre os Estados do Rio e de São Paulo, a notícia sobre a implantação do trem de alta velocidade (TAV) tem circulado nas cidades por onde a linha deve passar e movimentado discussões de investidores e moradores. A novidade preocupa, mas poucos se declaram contra o projeto, um investimento de R$ 34,6 bilhões.

Em Itupeva, cidade paulista próxima a Campinas, a divulgação do traçado referencial do trem-bala provocou a suspensão da construção do que seria o “melhor campo de golfe do Brasil”, segundo César Federmann, diretor da Senpar. A empresa é proprietária das áreas ocupadas pelos parques Hopi Hari e Wet’n Wild, dos condomínios Terras de São José e Fazenda SerrAzul e do shopping SerrAzul Plaza, todos na região. Em Jundiaí (SP), um grupo de moradores planeja criar um blog na internet para divulgar críticas ao trem. O advogado Rubens Pellicciari, natural da cidade, é quem encabeça o movimento. “Esse trem é uma aventura. Você sai de uma situação que não tem nada para algo espetacular”, diz ele.

Pequenos produtores rurais são os mais preocupados com o trem-bala no município de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba paulista. “Considerando que por aqui há médias e pequenas propriedades, a desapropriação pode aniquilar algumas produções”, diz Paulo Lucchesi, presidente do sindicato rural da cidade e dono da Fazenda Aliança, de 400 hectares, onde possui gado leiteiro e cultiva arroz.

Mais desconfiado do que crítico, José Geraldo Barbeta , que produz feno em seu sítio na Colônia do Piagui, também em Guaratinguetá, mostra dúvidas em relação ao trem-bala. “Notícia sobre isso só tenho pela televisão. Você acredita mesmo que isso possa sair? ” O governo federal calcula que no total serão gastos R$ 2,3 bilhões em desapropriações, custo que será coberto pela União.

Há quatro semanas, Federmann, o diretor da empresa que pretendia construir o campo de golfe em Itupeva, estava nos Estados Unidos fechando contrato com um arquiteto para a execução da obra, quando recebeu o e-mail de um sócio. “Ele avisou que tinha saído o traçado do trem-bala, e que a linha passaria pelo local do empreendimento”, conta. O executivo checou no site do TAV que realmente as terras da Senpar seriam atravessadas pelo trem no município de Itupeva. “Pedimos ao arquiteto 15 dias para que pudéssemos checar que implicações teria no negócio”, acrescenta.

Voltando ao Brasil, Federmann descobriu que em duas semanas não seria possível resolver a situação. “Você imagina o prejuízo que podemos ter ao ficar com os negócios todos parados até que haja alguma definição sobre o TAV?”, diz. O próximo passo seria apresentar o projeto ao governo estadual para obter autorização para a construção, e a expectativa era começar a obra ainda este ano.

O executivo tem buscado o máximo de informações junto a prefeituras e associações, mas não está animado com as notícias. “Ficamos sabendo que o traçado divulgado é só uma referência, o que significa que, em tese, o trem passa por qualquer lugar na região. Precisamos de algo mais definido para propor alterações.”

Ele diz que não é contra o TAV, pois acredita que o transporte pode trazer mais desenvolvimento para a região, mas reclama das incertezas. Uma das preocupações é que o trem isole a região urbana de Itupeva da área turística onde a empresa possui terrenos. “Gostaríamos muito que o projeto acontecesse, mas hoje qualquer investimento nosso fica em compasso de espera”, explica.

A área total que a Senpar possui para empreendimentos na região é de 7 milhões de metros quadrados, e além do campo de golfe, há a intenção de construir também condomínios residenciais de alto padrão e escritórios.

Em Jundiaí, o trem-bala deve cortar um distrito industrial, numa área próxima às fábricas da Coca-Cola Femsa e da Ambev. O traçado referencial sugere que o trem-bala passará pela área de estacionamento da Coca-Cola. As empresas não quiseram se pronunciar sobre o assunto.

Pelliciari, o advogado jundiaiense, decidiu não ficar apenas nas críticas ao projeto. Fez um estudo defendendo que o melhor para a cidade seria investir na linha férrea comum, que liga a cidade à estação da Luz, no centro de São Paulo. Existe hoje uma linha da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que liga a cidade ao município de Francisco Morato, onde é possível fazer baldeação para o centro de São Paulo, um percurso total de 1h20. “O leito já existe, seria um investimento muito menor. Não desapropria, não desaloja, não atrapalha ninguém”, diz Pellicciari.

Além de avaliar que o trem-bala não trará benefícios diretos à cidade, Pellicciari tem um terreno de um alqueire (2,42 hectares) com plantações de eucalipto em área indicada pelo traçado referencial do trem-bala. Ele diz, porém, que essa questão é menor, já que é uma propriedade pequena e ele não se importaria caso recebesse a indenização.

Em audiência pública na prefeitura de Jundiaí, ele entregou o documento ao gerente do projeto de implantação do TAV da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), Roberto Dias David. “Se fala do trem-bala há 30 anos, e agora o governo tem essa pressa e o trem-bala cai sobre as nossas cabeças”, disse Pellicciari, aplaudido pelos demais moradores presentes. Entre eles, Hamilton Humberto Ramos, engenheiro, que manifesta dúvida sobre se já é possível saber quais são as áreas a serem desapropriadas e se a ANTT está atenta aos danos ambientais que o projeto pode causar em Jundiaí. Ainda não há respostas certas, apenas que no estudo estão sendo consideradas as leis ambientais.

Em Guaratinguetá, os produtores rurais tomaram conhecimento do projeto há pouco tempo e estão com muitas dúvidas. Se alguns não acreditam no projeto, outros se preocupam mais com o pagamento correto das indenizações. Existe também aqueles que veem o empreendimento de forma positiva.

José Geraldo Barbeta vai ao centro de Guaratinguetá de manhã entregar o feno que produz em seu sítio na Colônia do Piagui. De tarde, dá-se o direito de curtir a casa nova, em construção, com um riacho ao fundo. No centro da cozinha, um belo fogão à lenha, e à frente da porta de saída, uma horta orgânica. São duas horas da tarde e a cerveja está acabando. “Se acabar eu saio para comprar mais. Hoje eu fico descansando até o fim do dia”, diz o produtor, que vive com seu pai.

Barbeta diz que já sofreu muito por levar uma vida corrida. Hoje toca com calma a produção de feno e cuida de suas primeiras cinco cabeças de boi japonês wagyu, a do sofisticado bife de Kobe. A raça, que precisa ser criada em ambiente tranquilo, está em boas mãos. Para ter paz, Barbeta optou por cancelar o celular e fechar a conta pessoal no banco. Vive longe das ditas “coisas modernas”. Não por muito tempo. O trem-bala deve passar próximo à sua propriedade.

O produtor desenha no ar as possibilidades de caminhos para o trem-bala na região, por túnel, por ponte, passando pela cidade, pelo vale aos pés da Serra da Mantiqueira. Apesar das incertezas, diz que não está preocupado. “Sou uma pessoa despreocupada. Se vierem, o importante é pagarem pela terra.”

Eduardo Cavalca, dono do Sítio Santo Antônio, vizinho de Barbeta, se preocupa com o pagamento das desapropriações. “A experiência que temos é um desastre, não dá para ter confiança em governo”, diz. O produtor de arroz reclama que desapropriação é um processo demorado, que envolve desde problemas de falta de documentos dos proprietários, até atrasos nos pagamentos.

Com base nas informações obtidas no estudo referencial do projeto, Lucchesi, presidente do sindicato rural de Guaratinguetá, teme que o trem-bala cause transtorno à região. O risco de divisão de terras – o que pode atrapalhar o manejo da propriedade – e o bloqueio da passagem de animais silvestres entre as áreas separadas pelo trem são preocupações levantadas pelo produtor. “Estamos buscando mais informações, mas não tenho muita esperança de conseguir mudanças em um projeto dessa magnitude”, diz ele.

Luiz Roberto Carrocci, engenheiro mecânico, vê o empreendimento de forma mais positiva. Proprietário do Sítio Recanto Feliz, onde cultiva cana-de-açúcar e produz aguardente, licores e doces, Carrocci acredita que o trem-bala pode ajudar no desenvolvimento à região. “A construção da linha vai trazer investimentos para a cidade e melhorar o mercado de trabalho. É uma oportunidade para qualificar trabalhadores, trazer conhecimento técnico”, afirma.

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