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Sob o legado dos derivativos de crédito

Blythe Masters foi uma pioneira de Wall Street que ainda poderá ajudar a descobrir o segredo da juventude eterna, mas seu legado já é conhecido: ela ajudou a inventar os derivativos de crédito, os instrumentos financeiros que levaram a economia americana a explodir em 2008. Aos 45 anos, a diretora do J.P. Morgan, que mais recentemente esteve envolvida na venda da divisão de commodities do banco ao Mercuria, renunciou ao posto na semana passada.

Conforme descrito no livro “Fool’s Gold”, de Gillian Tett, um grupo de gênios matemáticos, que incluía Masters do J.P. reuniu-se na metade da década de 1990 para eliminar o risco de emprestar dinheiro com um novo tipo de contrato que os bancos poderiam usar para se proteger contra a possibilidade de um calote. Como escreveu Paul M. Barrett, da “Bloomberg BusinessWeek”, em uma resenha do livro de Tett, a estrutura funcionava assim:

“O Banco A, preocupado com um empréstimo que concedeu, firma um contrato de derivativo para pagar uma taxa ao Banco B em troca da promessa do Banco B de compensar o Banco A se o empréstimo não for pago. O Banco A se livra de parte da incerteza relacionada ao empréstimo concedido e sente-se encorajado a conceder novos empréstimos. O Banco B assume parte do risco, mas imediatamente é beneficiado pela taxa”.

Esse instrumento foi batizado como “derivativo de crédito” e logo passou a ser usado para assegurar milhões de hipotecas de baixa qualidade, agrupadas em lotes que depois eram vendidos a investidores de todas as partes do mundo. Quando o mercado imobiliário entrou em colapso em 2007, o mesmo ocorreu com os derivativos, provocando uma carnificina financeira grande demais para ser enumerada. De lá para cá, Blythe Masters vem tentando se distanciar dos danos provocados inadvertidamente por sua criação. É culpa sua o fato da inovação ter sido usada de maneira tão errada e explorada por terceiros?

Nascida na Inglaterra, Masters entrou para o J.P. Morgan em 1991 após se formar em economia pela Universidade de Cambridge. Sua carreira no banco seguiu uma trajetória acelerada de alta. Ela se tornou a mais jovem diretora-gerente da instituição, aos 28 anos, e se mudou para Nova York, assumindo um papel importante não só no desenvolvimento dos derivativos de crédito, como também na venda desses instrumentos aos investidores como um novo conceito. Um de seus clientes era Joseph Cassano, chefe da unidade de produtos financeiros da AIG. A estratégia não funcionou muito bem para a AIG, que assegurou bilhões de dólares em títulos hipotecários podres. Em 2008, a companhia ruiu e foi tomada pelo governo dos Estados Unidos.

O pessoal do “Occupy Wall Street” pode ter ficado irritado, mas Blythe Masters tinha o apoio do executivo-chefe do J.P. Morgan, Jamie Dimon, que a nomeou para comandar as operações globais de negócios com commodities do banco em 2006. Ela era popular e admirada por sua inteligência, energia e ética no trabalho. “Jamie não tem problemas com mulheres fortes”, disse Heidi Miller, ex-chefe de negócios internacionais do J.P. Morgan, a Barrett para um perfil que ele escreveu para a “Bloomberg BusinessWeek”. “É preciso ter muita capacidade, sendo mulher, para chegar aonde Masters chegou.”

Em 2012, a Federal Energy Regulatory Commission começou a investigar os negócios do J.P. Morgan nos mercados de gás natural. Um memorando confidencial publicado pelo “The New York Times” trouxe que Masters teria feito, sob juramento, durante a investigação, “declarações falsas e enganosas” sobre as supostas práticas fraudulentas da instituição nos mercados de energia. O J.P. e Masters negaram qualquer irregularidade. O J.P. Morgan resolveu o caso no terceiro trimestre do ano passado concordando em pagar uma multa de US$ 410 milhões, sem admitir ou negar que tivesse culpa.

Há poucas semanas, o J.P. anunciou a venda da unidade de commodities físicas, supervisionada por Masters, para o Mercuria Energy Group por US$ 3,5 bilhões, livrando-se potencialmente de uma longa lista de dores de cabeça regulatórias. Isso significa que embora o banco ainda possa transacionar contratos de commodities visando lucros, não terá mais a posse, de fato, de petróleo, gás natural e metais como cobre e aço, como parte de sua estratégia de negócios. Masters esteve envolvida na negociação e ficaria no banco por mais alguns meses. Seus planos para o futuro são desconhecidos, mas o editor da “Reuters” Christopher Hughes chegou a cogitar numa análise a ida dela para a Glencore.

 

Fonte: Valor Econômico de 7.4.2014.

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