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Sabesp: entra em cena risco político e de racionamento

Por Olivia Alonso e Beatriz Cutait

Não foi do dia para a noite que a Sabesp se transformou numa empresa controlada pelo governo de São Paulo. Sempre foi assim. O mercado financeiro, contudo, parece dar atenção apenas agora para os riscos inerentes a qualquer empresa com participação estatal, que ficam mais evidentes em um ano eleitoral.

A Sabesp passou de queridinha de analistas para o centro das preocupações do setor de saneamento e do próprio governo do Estado. Em 2012, suas ações deram um salto – a alta foi da ordem de 74% – e passaram a colher a expectativa de bons resultados de um processo de revisão tarifária que a colocaria em um novo patamar, com recomendações de compra das principais casas que acompanhavam os papéis.

Agora, contudo, os ventos estão soprando para outros lados. Após recuarem 6,3% em 2013, os papéis acumulam perda de 18% neste ano. A seu favor, a Sabesp tem um histórico de números operacionais e financeiros sólidos, endividamento controlado e a distribuição de dividendos polpudos aos acionistas. No entanto, os fundamentos da empresa têm perdido espaço em um ambiente em que o mercado olha mais atentamente para dois grandes desafios.

O primeiro deles é o desfecho de seu programa de revisão tarifária. O processo deveria ter terminado no ano passado, mas teve diversas etapas adiadas. A última delas, que seria em 10 de abril, aconteceu apenas uma semana depois, em 17 de abril. Mas a finalização esperada pelo mercado ainda não aconteceu.

A Sabesp obteve autorização da agência reguladora do setor no Estado, a Arsesp, para reajustar seus preços. No entanto, a companhia informou que não aplicará a revisão das tarifas em maio, conforme o esperado, mas sim em alguma data até dezembro. Com isso, permanece a dúvida acerca das receitas da empresa. A decisão de não aplicar o reajuste imediatamente eleva as preocupações de investidores com o risco político da empresa.

Como a Sabesp precisa do reajuste para dar continuidade a seus planos de investimentos, a percepção que é a de que isso tem importância secundária no momento. O que se acredita é que o governo esteja evitando anunciar um aumento de preços da Sabesp em meio a temores em relação a um racionamento, às vésperas de eleições no Estado.

A Arsesp autorizou a aplicação do reajuste de preço em data futura, o que mostra um alinhamento das decisões da agência e da empresa. Em nota técnica, a Arsesp disse que a aplicação do reajuste “pode mostrar-se inviável ou indesejada”, citando que, no momento, a Sabesp está oferecendo descontos aos consumidores – de 30% para quem diminuir o consumo de água em 20%. Além disso, a agência não informou a razão do atraso para a publicação do valor de reajuste da Sabesp, embora afirmou ter concluído o processo em 10 de abril. Com isso, reforça a percepção de que houve intervenção do governo para que a publicação fosse adiada e repensada.

O segundo ponto a atrair a atenção dos investidores está, de certa forma, ligado ao primeiro. Há uma grande preocupação com a queda dos volumes faturados pela empresa, em decorrência dos incentivos para a redução do consumo. Desde que a Sabesp anunciou o programa de descontos, o mercado passou a se preocupar com os efeitos da medida nos números da empresa. Os analistas aguardam o balanço referente ao primeiro trimestre para ter uma indicação do impacto da redução dos volumes nas contas da companhia.

“As receitas da Sabesp são uma função dos volumes e dos preços. Hoje, há uma incógnita sobre a quantidade de água”, diz um analista que preferiu não ser identificado. A não aplicação do reajuste tarifário, agora, agrava a situação ao também manter como incógnita a variável preço.

Em relatórios recentes, analistas vêm traçando cenários possíveis para estimarem quedas de receitas da empresa. Sérgio Tamashiro, da J. Safra Corretora, ressalta que a Sabesp tem ainda que arcar sozinha com o programa de descontos.

Gustavo Muller, analista da Fitch Ratings, chama atenção para a possibilidade de revisão dos investimentos programados, de R$ 12,8 bilhões entre 2014 e 2018. “A companhia enfrenta uma situação preocupante de crise hídrica, uma das piores da história que se tem registro. Obviamente esse cenário mais desafiador vai impactar sua situação financeira. Já podemos antever alguma pressão nas margens, em função de custos adicionais. A empresa vai ter que readequar os investimentos diante da redução no volume faturado”, diz.

Considerando em suas premissas um crescimento de 2,5% da base de operações da Sabesp e um reajuste tarifário de 4,7% (inferior ao número final, de 5,44%, mas que agora não tem data para ser aplicado), a Fitch havia calculado em relatório recente uma redução na receita líquida de cerca de 14% em 2014, excluindo as receitas de construção. A agência esperava ainda um impacto forte na margem Ebitda, que passa de uma média de 44% nos últimos quatro anos para 33%.

Já o Goldman Sachs, considerando um cenário em que 50% dos 18,7 milhões de consumidores elegíveis vão obter o desconto de 30% prometido pela Sabesp, cortou em 7 de abril a sua projeção para as receitas da empresa em 7,6% neste ano, para R$ 8,9 bilhões. Já a previsão de lucro foi reduzida em 18,3%, para R$ 1,7 bilhão. A casa ainda cortou o preço-alvo para as ações, para R$ 28,50, mas manteve a recomendação de compra.

A analista Lilyanna Yang, do UBS, citou em relatório a possibilidade de que a Sabesp reduza o pagamento de dividendos para 25% do lucro, mínimo exigido pelas regras do mercado. A analista cortou em março a recomendação para os papéis de neutra para venda.

Para o investidor, é preciso sangue frio, já que a companhia possui bons fundamentos quando excluídos todos os fatores atípicos. A visão deve estar voltada ao longo prazo. Caso suporte ver as ações reagindo mais intensamente a tantas notícias negativas, poderá ser recompensado.

Fabio Motta, superintendente de renda variável da Western Asset, avalia que o governo de São Paulo, gerido pelo PSDB, é visto como mais amigável pelo mercado, o que não isenta empresas controladas por ele de ficarem expostas a questões políticas. “A Sabesp tem um pouco disso, mas existe um fundamento por trás da empresa, não é uma aposta especulativa em cima de uma melhora política.”

O gestor de renda variável da Franklin Templeton, Frederico Sampaio, diz que a gestora praticamente zerou a exposição às ações da Sabesp, mas não por conta de influência política e, sim, diante do risco de racionamento. “Não se sabe como a Sabesp vai fazer para tentar pegar essa parte do volume morto [do Sistema Cantareira], quanto tempo vai durar essa situação de falta de chuva”, explica.

Fonte: Valor Econômico de 22.4.2014.

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