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Reunião de ministros "patina" na OMC

Valor Economico-Assis Moreira, de Genebra

Reunião de ministros “patina” na OMC

02/12/2009

O principal negociador comercial dos Estados Unidos, Ron Kirk, acusou ontem o Brasil de estar ajudando a empurrar a Rodada Doha para o fracasso, com a recusa em fazer concessões adicionais exigidas por Washington nas áreas industrial e de serviços. O segundo dia da conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) terminou com os negociadores do Brasil e dos EUA jogando a culpa um no outro por um eventual fiasco definitivo da negociação global.
Depois de ter ouvido, na segunda-feira, Kirk exigir mais concessões dos emergentes, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou em plenário, logo depois, que a demanda americana era “irracional”, ainda mais diante do que os países em desenvolvimento já estão pagando para ter a negociação global concluída.
Ontem cedo, Kirk respondeu duro: “Se você pegar o que falou Amorim, então estamos condenando Doha ao fiasco, porque é todo mundo dizendo que quer mudanças, mas que não querem fazer nada diferente”, afirmou o negociador-chefe americano a três jornalistas. Lembrando sua experiência como ex-prefeito de Dallas, Kirk insistiu que quem tem liderança deve estar preparado para tomar duras decisões para alcançar os resultados esperados.
De seu lado, Amorim admitiu ontem “alguns ajustes, transparência” na oferta industrial do Mercosul, como já tinha frisado meses atrás, mas avisou que os americanos “precisam compreender” que se for para “mexer muito” no pacote só haverá duas hipóteses. “Uma é que não haverá acordo nenhum e quebra tudo. E outra é que vai se fazer um tal rearranjo do conjunto das negociações, que resultará em outra rodada e tomará mais seis, sete anos.”
Kirk, contudo, visivelmente quer mais do que “ajustes” e deixou claro que só dá para quebrar o impasse se os países “saírem da zona de conforto” para buscar um acordo “ambicioso”. “Não estamos pedindo concessões dos países pobres”, afirmou, mas sim de países em desenvolvimento, mais avançados, que estão tendo papel crescente na economia mundial. Temos uma oportunidade para intensificar o que os EUA e a União Europeia fizeram na Rodada Uruguai e tomar decisões difíceis que serão exigidas para levar à conclusão de Doha.”
Já para Amorim, a situação é “muito simples”: de 153 países membros da OMC, 152 querem fechar logo o acordo de Doha para cortar tarifas e subsídios com base no que já está mais ou menos acertado. Está de fora o país mais poderoso do planeta, que mostrou que não se sente isolado e que o resto do batalhão é que está pisando errado.
O jogo americano parece cada vez mais claro para um número crescente de analistas. Washington cobra dos emergentes ao mesmo tempo em que procura proteger parte de seu próprio mercado na área industrial. Enquanto cobra abertura do setor químico no Brasil, não quer abrir o seu para têxteis ou eletrônicos por causa da concorrência da China.
Para o subsecretário de Comércio Internacional da Argentina, Nestor Stancanelli, uma maior flexibilidade vai ser requerida pelos próprios países desenvolvidos com problemas estruturais, que não vão mais suportar o corte tarifário já negociado ou vão pedir exceções no último momento, se a Rodada Doha continuar.
A declaração final da conferência da OMC deve manifestar a vontade dos países de seguir adiante na negociação. Mas está claro que isso só será possível com vontade política. Alguns países, incluindo a Argentina, defendem a conclusão de Doha no ano que vem com “critério político”, e dentro de dois anos, uma vez confirmada a recuperação da economia mundial, os países examinariam o lançamento de outra rodada de negociação, com novos temas, como ambiente, moeda, finanças, comércio, normas técnicas, sanitárias e fitossanitárias.
Ontem, o Japão propôs a negociação antecipada para cortar logo tarifas de importação de bens ditos ambientais, incluindo o que mais produz, como carros híbridos, aparelhos de ar-condicionado e baterias de lítio. Desta vez, até os europeus ficaram em dúvida.

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