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Recompra para inglês ver

Por Beatriz Cutait

O ano pode ter começado turbulento para o mercado acionário brasileiro, mas há sempre aqueles que desfrutam das oportunidades de compras em meio a um cenário negativo que tem poupado poucos papéis. No primeiro trimestre, o número de programas de recompras de ações anunciados pelas empresas alcançou 21, até o dia 19 de março. O total é o maior para o período desde o auge da crise financeira, em 2008, quando foram anunciados 27 programas entre janeiro e março. A queda de 41,2% do Ibovespa naquele ano estimulou esse tipo de anúncio, com 110 recompras programadas para o período. Mas será que as empresas realmente cumprem os programas? Pelos dados mais recentes, a resposta é negativa.

Levantamento feito pelo Valor com base nos programas de recompras que se encerravam em 2013 mostra que a maior parte das companhias não levou as operações adiante. Pelo menos não no total anunciado. Das 51 empresas que pretendiam adquirir suas próprias ações até o ano passado, apenas oito fizeram recompras integrais dos papéis. Há ainda o caso da CSU Cardsyst, que manteve três programas em vigor em 2013 e em apenas um deles recomprou o máximo de papéis estipulado.

Pelo menos seis companhias – Alpargatas, Bradespar, Embraer, Itaúsa, Tecnisa e Telefônica Brasil (Vivo) – não fizeram nenhuma recompra no prazo estipulado, que é bastante flexível para as empresas. Outras 25 efetuaram a operação parcialmente. E 11 – BHG, Braskem, Dimed, Duratex, Eternit, GP Investments, Iguatemi, JBS, Klabin, Schulz e Totvs – não informaram ao Valor quantos papéis haviam recomprado nos programas de 2013.

Segundo instrução da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), as companhias têm prazo máximo de 365 dias para implementar seus programas, mas não são obrigadas a levá-los adiante. As empresas podem recomprar até 10% de cada classe de ações em circulação no mercado. Pelas regras da CVM, a companhia deve divulgar em nota explicativa às demonstrações financeiras e no formulário de informações trimestrais a quantidade de ações adquiridas ou alienadas no curso do exercício.

Analistas indicam que, mesmo em casos de pouca expressividade do programa, costuma haver um efeito “psicológico” dos anúncios sobre os investidores, dada a sinalização de que a própria empresa considera o preço de seu papel atrativo e demonstra confiança em seu futuro ao ter a intenção de comprar suas próprias ações. A realidade, contudo, indica que cabe ao investidor acompanhar o histórico da companhia para saber se seus programas devem receber um voto de confiança.

“Existem alguns anúncios que são simplesmente para inglês ver, com percentuais pequenos do ‘free float’ [total de ações em circulação]. E, na maioria dos casos, a empresa se compromete a recomprar num período de tempo muito extenso e não faz nada no curto prazo”, afirma Otávio Vieira, sócio da Fides Asset Management. “Essas empresas não têm pressa, então o investidor precisa acompanhar os informes para ver quem está recomprando ou não.”

A avaliação de analistas é que os programas não tendem a apresentar efeito prático sobre os preços dos papéis, mas há alguns casos que chamam atenção. Neste ano, por exemplo, a CSN anunciou um agressivo programa de recompra de até 70,2 milhões de ações (ou 10% do free float), a ser realizado em apenas um mês. Em 14 de março, data de início do programa, os papéis, que acumulavam baixa de quase 40% no ano, subiram nada menos que 11,7% em um só pregão. Desde aquele dia até terça-feira (25), a ação avançou 15,7%.

Vieira, da Fides, considera que o ambiente macroeconômico desfavorável ainda pode pressionar o mercado de ações, o que favorece um ritmo lento das recompras.

Juan Morales, gestor e sócio da Grand Prix Investimentos, defende que as companhias e os executivos sejam coerentes com seus anúncios. “Não adianta nada a empresa que precisa de caixa abrir um programa de recompra, porque não vai tomar dívida para fazê-lo.”

Mas Morales também lembra que as companhias têm o direito de esperar o melhor momento para recomprar seus papéis. “Justamente diante das incertezas macroeconômicas vistas desde o fim de 2012 muitos programas foram adiados ou até cancelados, e a empresa estava com caixa.”

Um total de 14 das 51 empresas que tinham programas a se encerrar em 2013 estão novamente com a opção de comprar ações neste ano. Ao todo existem 71 programas de recompras em curso.

A MRV, por exemplo, recomprou 7,8 milhões de papéis num programa que vigorou entre agosto de 2012 e o mesmo mês de 2013 e que tinha como limite o total de 10 milhões de ações. Neste mês, a companhia anunciou nova operação para adquirir até 15 milhões de papéis.

“À medida que tenho uma ação muito desvalorizada e o conselho de administração vê o valor da companhia e enxerga a recompra como uma boa opção econômica do ponto de vista de investimento, ele quer que a empresa atue e recompre. E para isso tenho que ter um programa em aberto”, afirma o diretor executivo de finanças da MRV, Leonardo Guimarães Corrêa.

Como a companhia é geradora de caixa e sua ação está sendo negociada abaixo do “valor de livro”, diz o executivo, a recompra é tida como um bom investimento. “Não tenho o objetivo de mudar o preço, mas de ganhar dinheiro, no sentido de ser um bom investimento.”

O gestor da Grand Prix cita três motivações de empresas por trás de uma intenção de recomprar ações. A primeira delas é a de aumentar a expectativa de lucro por ação. “Obviamente se a empresa faz uma recompra e cancela as ações, sua base acionária é menor e, se ela entrega o mesmo lucro, há naturalmente um lucro por ação maior, que não deveria aumentar o valor de mercado do papel, mas cria um efeito psicológico no investidor muito bom, de crescimento de lucro por ação”, comenta.

A segunda motivação, diz Morales, é a boa comunicação entre a companhia e o mercado. Segundo ele, a opção de recompra dá uma forte indicação da administração da empresa de que possivelmente existe um cenário muito bom de crescimento de resultados, de lucros. “A companhia está sinalizando para o mercado que vai ter uma boa performance operacional e, por isso, está fazendo esse investimento, com a opção de ver uma valorização no futuro.”

O terceiro ponto está vinculado à simples indicação de que as ações estão subvalorizadas. “A companhia não terá necessariamente um crescimento de lucro, mas parte do princípio de que está mal avaliada pelo mercado”, diz Morales, para quem os programas de recompra funcionam como um bom gerenciamento das expectativas de investidores.

Além de usar o caixa para recomprar ações, as empresas podem destinar os recursos para distribuir dividendos, investir no próprio negócio ou mesmo diminuir uma alavancagem financeira alta, diz o gestor da Grand Prix.

Marcel Kussaba, responsável pela área de análise da gestora de recursos Quantitas, assinala que a decisão depende do estilo e das próprias necessidades de cada companhia. “Não faz tanto sentido ver recompras de empresas menores”, diz, referindo-se à redução da liquidez no mercado quando há o cancelamento dos papéis. “E tem uma questão do estilo do controlador. Se é familiar, prefere fazer recompras de ações e proporcionalmente aumentar sua participação que pagar os dividendos”, exemplifica.

Morales, da Grand Prix, destaca ainda que algumas empresas optam por recomprar ações no lugar de pagar dividendos para evitar uma especulação sobre os valores das próximas distribuições. Muitos executivos não gostam de se comprometer com a possibilidade de pagar dividendos maiores, comenta.

Para o acionista minoritário, Kussaba, da Quantitas, vê a recompra mais como um instrumento de sinalização da empresa, sem efeito prático sobre as ações, especialmente quando o prazo para a implementação do programa é extenso.

“O mercado calcula qual a pressão de compra que o anúncio do programa vai ter. Em um ano, contudo, nenhuma empresa consegue gerar um efeito significativo sobre os papéis”, opina.

Fonte: Valor Econômico de 27.3.2014.

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