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Privilégio de poucos, DI farto entra em extinção

Em um ano de grandes oscilações para a renda fixa, até mesmo os confortáveis fundos DI tem surpreendido os investidores. Entre março e maio deste ano, por exemplo, eles tiveram ganhos mensais entre 0,03 e 0,06 ponto percentual acima do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), referência para aplicações conservadoras. Para se ter uma ideia, em 2011, o retorno adicional máximo havia sido de 0,03 ponto, ocorrido em um único mês.

Depois da bonança do início do ano, entretanto, veio a escassez. Em junho, o ganho adicional foi de apenas 0,01. Em julho, na média, o retorno dos fundos DI foi 0,02 ponto inferior ao do referencial. Foi a primeira vez nos últimos 18 meses que essa categoria não ganhou do CDI. Em agosto os DIs caminham para repetir o feito: estão empatados com o referencial até o dia 24. Os dados são da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

O que aconteceu de março a maio foi um aumento da demanda pelos títulos públicos e privados que recheiam essas carteiras, valorizando os papéis. O movimento teve duas causas principais. Por um lado, a alta procura combinada com o esforço do governo para reduzir o volume de papéis pós-fixados no mercado resultou em um ágio para as Letras Financeiras do Tesouro (LFT). Na prática, os papéis passaram a ser negociados com uma promessa menor de rentabilidade. Ganharam os fundos que já tinham o papel na carteira.

Por outro, a taxa básica de juros muito baixa e as incertezas sobre a bolsa elevaram a atratividade do crédito privado. “Os investidores buscaram o conforto de uma solução intermediária: a exposição ao crédito”, diz Guilherme Abbud, responsável pela renda fixa da Western Asset. Esses papéis passaram a render diferenciais menores. Debêntures, por exemplo, que antes pagavam cerca de 115% do CDI hoje rendem 110% do referencial, diz Abbud. Quem já tinha os títulos mais rentáveis na carteira também ganhou com esse movimento.

A fonte de ganhos fartos para os fundos DI, entretanto, parece ter ficado para trás. “Os prêmios que vinham caindo quase que ininterruptamente agora estão bem magros e parecem se estabilizar”, afirma Abbud. Com ágios menores nas LFTs e ganhos mais tímidos no crédito privado, diz, o prêmio dos DIs tende a empatar ou perder para o referencial. É o resultado mais lógico, considerando que o retorno médio já desconta a taxa de administração. “A velocidade de cruzeiro de fundo DI é render menos do que o CDI”, diz o gestor da Western.

Leonardo Bortoloto, sócio da Aditus Consultoria, também tem sentido o fim da festa dos fundos DI. “No começo do ano eles foram um pouco melhor, mas já no mês passado a rentabilidade de quem tinha LFT ficou prejudicada.”

Apesar das perdas dos últimos meses, os fundos DI ainda ganham do CDI no ano. Marcam 6,03% contra 5,87% do referencial. Mesmo quando aparece na média, entretanto, o diferencial positivo com relação ao CDI é para poucos. “O investidor de varejo não deve se impressionar com esses números”, diz Marcelo d’Agosto, autor do blog “O Consultor Financeiro” do site do Valor. Um levantamento de d’Agosto mostra que no mês e no ano, até 24 de agosto, os fundos DI de varejo perdem com folga para o CDI. No ano, por exemplo, pagam 5,42%, contra os 5,87% do referencial.

O mesmo vale para os fundos de curto prazo, que também aplicam principalmente em LFTs. Na média, eles ganharam ou empataram com o CDI em todos os meses deste ano e, no acumulado, pagam 5,90%. O resultado é bem expressivo quando se considera que, em 2011, eles perderam para o referencial por seis meses. As carteiras oferecidas ao varejo, entretanto, estão bem abaixo, com 4,45%, conforme o levamento do consultor.

Para o investidor pequeno, que tem poucas opções líquidas à mão, a taxa de administração dos fundos DI e curto prazo costuma ser pesada, ressalta Luiz Monteiro, responsável pela área de renda fixa da Queluz. “Quanto mais você tiver para aplicar, maior vai ser a concorrência dos bancos para captar seu dinheiro”, afirma ele. Quando existem, portanto, os ganhos fáceis e cômodos tendem a ser mais acessíveis pelos investidores de maior porte.

Valor Econômico de 30.8.2012.

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