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Multilaterais voltam ao destaque

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Multilaterais voltam ao destaque

Em meio à crise de liquidez e solvência no sistema financeiro internacional, que já dura mais de um ano, as empresas brasileiras têm recorrido aos organismos multilaterais para conseguir empréstimos externos de longo prazo a custos compatíveis com os investimentos que buscam fazer.

Do total de US$ 6,31 bilhões em empréstimos sindicalizados neste ano (transações já fechadas e em andamento), 31,78% têm participação de agências de crédito à exportação dos governos dos países ricos ou agências multilaterais reduzindo seu risco. No ano passado, a fatia dessas entidades foi de 14,7% em relação aos US$ 23 bilhões tomados.

Em 2006, com o prêmio de risco-Brasil em queda livre e os prazos se alongando, as empresas brasileiras captaram o recorde de US$ 28 bilhões em empréstimos externos, mas apenas 1,4% teve participação de multilaterais e agências de crédito à exportação.

Os organismos multilaterais tiveram papel determinante em 2002 e 2003, pois reduziam o risco em meio a uma outra forte crise de crédito externo, a crise eleitoral, que fez explodir o risco-Brasil. Nesses anos, as agências governamentais e multilaterais tiveram fatia de respectiva de 45,1% e 36,6% nos totais de US$ 6,38 bilhões e US$ 2,65 bilhões de empréstimos sindicalizados realizados. Foram fundamentais inclusive como fonte de crédito à exportação, que secou mesmo para as empresas maiores. Os dados são do Valor Data.

Hoje, Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Caf (Corporação Andina de Fomento) dão conforto para bancos menos atingidos pela crise de hipotecas americanas que nunca haviam emprestado ao Brasil participarem de empréstimos de até US$ 2,4 bilhões em andamento.

Empresas como a Usiminas, a Gerdau, a Eletrobrás e a Companhia Nacional do Açúcar e Álcool estão levantando recursos em empréstimos com o apoio de organismos multilaterais com prazos de até dez anos no total de US$ 1,7 bilhão. O Itaú BBA e a Gerdau estão tomando empréstimos para capital de giro de prazo de vencimento em três anos no total de US$ 700 milhões.

“Há bolsões de liquidez em pequenos bancos asiáticos e o aval dos organismos multilaterais contribui para trazer o crédito desses bancos para empresas que eles ainda não conhecem”, afirma Ernesto Meyer, coordenador de financiamento para aquisições e operações sindicalizadas para a América Latina do BNP Paribas, que acaba de voltar de viagem pela Ásia. “O grau de investimento (obtido pelo país no final de abril) também ajuda”, diz.

De acordo com Alexei Remizov, responsável pela área de mercado de capitais do HSBC, “há inúmeros bancos do Oriente Médio e Ásia com espaço nos seus balanços que não têm sido tradicionais credores do Brasil e têm limitada familiaridade com a história de crédito do país”. Segundo ele, as estruturas dos empréstimos com agências multilaterais “facilitam no engajamento dessas instituições”.

Os processos de sindicalização dos empréstimos “estão sensíveis”, nas palavras de Paulo César Souza, diretor comercial do Société Générale. Há o chamado “risco de sindicalização” – de o banco líder não conseguir distribuir o empréstimo e ter de ficar com ele 100% em seus livros. “Os organismos multilaterais reduzem esse risco”, avalia.

Por meio da estrutura de empréstimo guarda-chuva, o chamado empréstimo A/B, a agência multilateral entra diretamente com uma parte do crédito, no chamado empréstimo A, e os bancos internacionais com o restante, no chamado empréstimo B. Mas o organismo multilateral aparece como credor oficial de toda a operação. Como é credor preferencial, o primeiro a receber no caso de uma moratória, reduz o risco do empréstimo para os bancos participantes. Para muitos bancos, esse tipo de empréstimo não precisa sequer ser contabilizado como parte da carteira de risco-Brasil, ampliando a disponibilidade de crédito para o país.

Diretor de banco nacional que preferiu não se identificar afirma que apesar de o Brasil ser grau de investimento há bancos centrais na Europa – da Espanha e da Itália, por exemplo – que ainda exigem pesadas provisões para empréstimos ao Brasil. Os organismos multilaterais liberam os bancos dessas provisões e ampliam a capacidade de empréstimos com risco-Brasil. Além disso, nesse tipo de empréstimo, não há a necessidade de pagamento de Imposto de Renda sobre os juros remetidos.

“O mercado continua complicado para a emissão de ações e de bônus, assim como para os empréstimos externos sindicalizados, mas vários tomares recorrem aos empréstimos por causa do ‘fator relacionamento’ que está presente na sua execução”, diz Remizov. “As empresas brasileiras estão investindo, impulsionadas pela demanda interna, e os empréstimos guarda-chuva possibilitam prazos mais longos compatíveis para os investimentos”, diz César Souza. “É difícil explicar para os estrangeiros que, enquanto a economia dos Estados Unidos e Europa se desacelera, as empresas brasileiras estão investindo em massa neste momento.”

Segundo Meyer, para as empresas brasileiras de primeira linha há recursos disponíveis, mas os prazos das operações se reduziram e os prêmios de risco estão com tendência de alta. “Agora é mais difícil conseguir crédito para capital de giro de vencimento em cinco anos”, diz. A liquidez está mais concentrada nos três anos. Os prêmios de risco subiram de 50 a 75 pontos básicos em relação ao final do ano passado.

Ele não quis comentar nenhuma operações específica, mas, segundo o Valor apurou, a Gerdau está tomando US$ 500 milhões para capital de giro pagando prêmio de 125 pontos básicos sobre a Libor, taxa interbancária de Londres, pelo prazo de vencimento em três anos, sob a liderança do Citigroup. O Itaú BBA está concluindo um empréstimo com prazo de vencimento em três anos a taxas de 95 pontos básicos sobre a Libor, sob a liderança do BNP Paribas e do Unicredit-HVB. Participam, na primeira fase da sindicalização, o Sumitomo, o Banco de Tóquio Mitsubishi, o Mizuho, o Banco de Montreal e o Natixis.

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