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Mesmo com acordo, fábrica da GM em São José deve ser desativada

Opinião é de analistas consultados pela Agência Estado, que veem poucas soluções viáveis para salvar o emprego dos metalúrgicos hoje considerados excedentes

Wladimir D’Andrade, da Agência Estado

SÃO PAULO – A fábrica da General Motors em São José dos Campos há anos perde competitividade e hoje as disputas entre a montadora e o sindicato local em torno de demissões de trabalhadores e falta de investimentos em novos produtos só podem levar a um destino, o do fechamento. Ou pelo menos à extinção de parte de suas linhas de produção, situação eminente na linha de Montagem de Veículos Automotores (MVA), onde já foram eliminados os modelos Corsa, Zafira e Meriva, restando apenas o Classic. A opinião é de analistas do setor automotivo consultados pela Agência Estado, que veem poucas soluções viáveis para tirar a fábrica da crise e salvar o emprego dos cerca de 1.500 metalúrgicos hoje considerados excedentes.

O ex-presidente da Ford Brasil e diretor do Centro de Estudos Automotivos (CEA), Luiz Carlos Mello, é categórico ao afirmar que a unidade da GM no Vale do Paraíba acabará fora de operação em algum momento, por conta da perda de competitividade observada ao longo dos últimos anos. De acordo com ele, a planta de São José dos Campos não tem capacidade de concorrer com outras fábricas da GM no País e, quando uma unidade produtiva chega a uma situação semelhante, o destino é o fechamento. “A fábrica de São José dos Campos está absolutamente com o seu destino selado: deixar de ser operada”, afirma.

Um dos motivos para a perda de competitividade, segundo Mello, foram reajustes de salários mais elevados que os níveis de crescimento da produtividade. O diretor lembra que o mesmo ocorreu com as montadoras norte-americanas Chrysler, Ford e a própria GM, que chegaram à beira da falência nos Estados Unidos após a intensificação da crise em 2009. “Esta situação atual da fábrica de São José dos Campos foi construída à medida que a GM se submeteu às exigências do sindicato que eram prejudiciais à empresa”, afirma Mello.

De acordo com a sócia-diretora da Prada Assessoria e diretora da Pós-Graduação do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), Letícia Costa, a montadora sempre teve um histórico de relações complexas com o sindicato de metalúrgicos na fábrica de São José dos Campos. “No momento, o que a planta precisa é de competitividade e o sindicato local é historicamente difícil de lidar”, diz. Segundo ela, as outras unidades da montadora no País, em Gravataí (RS), São Caetano do Sul (SP) e, em breve, Joinville (SC), oferecem melhores condições para produzir veículos e motores a um custo mais baixo, não só com folha de pagamentos, mas também com sistemas e maquinário de produção. “O investimento também corre atrás da competitividade.”

No último sábado (04), a empresa e o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região concordaram com a proposta de licença remunerada para 940 metalúrgicos e a abertura de um programa de demissão voluntária (PDV) para outros 900 considerados excedentes na unidade. Letícia vê o acordo como uma solução temporária. Na opinião dela, o retorno dos investimentos só será possível caso haja uma “flexibilização” por parte dos trabalhadores da planta. E por “flexibilização” ela quer dizer aceitar negociar condições colocadas pela empresa, como banco de horas e reduções da jornada de trabalho para ajustar a produção ao volume de vendas nos momentos de dificuldade do mercado. “Ou o sindicato aumenta o grau de flexibilidade ou a tendência é que o nível de atividade seja reduzido.”

Saídas

Apesar do futuro da fábrica da GM em São José dos Campos se mostrar sombrio, algumas soluções poderiam trazer alívio ao cenário da unidade. Para o consultor sênior da Carcon Automotive Julian Semple, sindicato e montadora podem negociar um remanejamento dos trabalhadores da linha de montagem MVA, que vem sendo esvaziada pela empresa, para outras que se mantém competitivas, como é o caso da pickup S-10 e do utilitário Chevrolet Blazer, que está prevista para ser lançada ainda este ano.

“Essa pode ser uma solução de curto prazo até os investimentos retornarem para a unidade de São José dos Campos, ou pelo menos até passar o período de crise nas exportações, o que reforçaria a linha de CKDs (kits de partes de automóveis para posterior montagem dos veículos)”, diz. A montadora informou que já houve, ao longo dos últimos meses, remanejamento de pessoal da linha MVA. Durante as últimas reuniões com metalúrgicos, na tentativa de chegar a uma solução que evitaria demissões, a GM recusou proposta do sindicato de concentrar 100% da produção do Classic em São José dos Campos, voltar a produzir caminhões e fabricar localmente o modelo importado Sonic.

Customização

Para o sócio-diretor da consultoria Pieracciani, Valter Pieracciani, a única saída para a fábrica em São José dos Campos é um processo que ele chama de inovação no significado dos veículos da planta. O conceito, conta, é do professor italiano Roberto Verganti, que já prestou serviços para empresas como Ferrari, Volvo e Ducati, e consiste em renovar um modelo já existente com base no design para que o veículo brigue por uma nova fatia do mercado apresentando novas concepções e personalizando o veículo ao gosto do proprietário – como customização do painel e da cor.

Um exemplo, cita Pieracciani, é o Fiat Uno. “O Uno é um carro que tem o apelo de jovialidade, da personalização, com um design diferenciado. Mas o carro é o mesmo há 40 anos”, afirma. Outro exemplo de sucesso é o EcoSport, que foi modelado ocom base na estrutura do Ford Fiesta. “É o SUV que cabe no bolso do brasileiro que sonhava com a Cherokee”, diz. Ele, no entanto, diz que a possibilidade dessa solução ser adotada na GM é pequena. “A GM não tem tradição de ‘ressignificação’ de veículos calcada em design, porque sempre deu prioridade à inovação por meio de tecnologia”, diz. “Mas essa é a única saída que eu vejo para São José dos Campos.”

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