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IPOs movimentam R$ 20,5 bi no ano apesar de incertezas

Olhado sob a frieza dos números, 2013 foi espetacular para ofertas de ações no Brasil. O volume captado pelas empresas que estrearam na bolsa, de R$ 20,5 bilhões, foi o maior desde 2007, o período de ouro dos IPOs no país. Entre novatas e companhias já listadas, foram captados R$ 23,9 bilhões em 18 operações. A Bovespa também foi palco da maior emissão de ações do mundo neste ano, com a abertura de capital da BB Seguridade, que movimentou R$ 11,5 bilhões.

É um caso clássico de como as aparências podem enganar. O ano de 2013 teve, sim, bons momentos para as ofertas, mas foi suado para as empresas que se arriscaram a ir à bolsa e exigiu habilidade dos coordenadores dessas operações. Reticentes com a política econômica brasileira e atentos à retomada do crescimento dos Estados Unidos, investidores foram seletivos. Impuseram descontos até mesmo em ofertas há muito aguardadas pelo mercado, como as da empresa de turismo CVC e a da Via Varejo, as duas últimas do ano.

Para conquistar investidores arredios, os bancos de investimentos que trabalham na estruturação das ofertas tiveram de aprofundar o trabalho de preparação das empresas e inovaram no desenho de algumas operações.

O que se viu neste ano não é muito diferente do que os banqueiros de investimentos esperam para 2014, que terá como desafio adicional um calendário bem mais apertado por conta da Copa do Mundo e das eleições. “Vai ser um ano no mínimo curioso”, resumiu Jean-Marc Etlin, vice-presidente-executivo do Itaú BBA, em uma recente entrevista à imprensa.

Num mercado em que as operações precisam seguir trâmites rigorosos e têm “janelas” para ser colocadas, esses dois eventos vão reduzir ainda mais os espaços para lançar as ofertas. No caso das eleições, a depender do tom da campanha pode haver também aumento da volatilidade, o que dificulta a formação de preços nas ofertas.

“Ninguém vai sair com uma oferta no meio da Copa. Até dá para sair, mas atrapalha, tira o foco”, afirma Hans Lin, corresponsável pelo banco de investimentos do Bank of America Merrill Lynch (BofA) no Brasil.

Para não ter de disputar a atenção dos investidores com Neymar, Messi e os candidatos à eleição presidencial, os bancos têm recomendado às companhias que façam suas ofertas de preferência no primeiro trimestre. Quem quiser captar recursos no primeiro semestre e não competir com a Copa terá de estar pronto, no máximo, até o fim de maio, afirma Renato Ejnisman, responsável pelo banco de investimentos do Bradesco BBI.

Algumas empresas, no entanto, já têm sinalizado que pretendem deixar suas operações para 2015, observa Paulo Corchaki, responsável pela área de investimentos do UBS Wealth Management Brasil.

Um mau sinal é que não há, por enquanto, pedidos de ofertas arquivados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para ser lançadas em janeiro ou fevereiro. Nos bancos de investimentos, há poucas operações no radar para o começo do ano.

Marcelo Millen, responsável pela área de ofertas de ações do Credit Suisse, calcula que há cerca de 50 empresas candidatas a ir à bolsa. No entanto, poucas já contrataram os bancos para iniciar os procedimentos.

“Se 2014 for igual a este ano em volume de ofertas, terá sido razoavelmente bom”, diz Lin, do BofA.

As expectativas recaem ainda sobre as empresas de consumo, que têm dado o tom nas ofertas nos últimos ano. Porém, desta vez também são esperadas ofertas de companhias de infraestrutura, que vão precisar captar recursos para fazer investimentos. Ofertas como da Invepar, da Odebrecht TransPort e uma nova tentativa da Votorantim Cimentos são algumas das operações aguardadas para o próximo ano. Se saírem, darão um empurrão no volume de captações, já que tendem a ser ofertas grandes.

O caso da Votorantim Cimentos ilustra bem o que aconteceu com as ofertas neste ano. A empresa controlada pelos Ermírio de Moraes estava pronta para fazer seu IPO em junho. Porém, suspendeu a operação quando o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deu os primeiros sinais de que poderia reduzir seu programa de incentivos monetários – o que deslocou capital dos países emergentes para os Estados Unidos.

Até então, o mercado brasileiro estava aquecido para as ofertas. Depois de um 2012 fraco, o ano começou com a bem-sucedida estreia da fabricante de software Linx e continuou dessa forma nos meses seguintes, com operações como a da Smiles e da BB Seguridade.

Com as declarações do presidente do Fed, Ben Bernanke, em maio, o cenário virou de cabeça para baixo. Atraídos pela alta das taxas de juros dos títulos do Tesouro americano, os investidores tornaram-se muito mais seletivos com ativos de países emergentes.

O impacto foi maior no Brasil que em outros mercados. Além do contexto internacional, agravou-se a insatisfação dos investidores com o governo. “Foi um ano muito difícil, em que houve uma cristalização do mau humor em relação ao Brasil”, afirma Fábio Nazari, chefe de mercado de capitais do BTG Pactual. “As expectativas em relação ao país estão superbaixas.”

Esse é o clima que ainda persiste no fim de 2013 e deve se estender pelos próximos meses. “O ano teve dois contextos diferentes e 2014 também vai ser desafiador”, diz Alessandro Zema, corresponsável pelo banco de investimentos do Morgan Stanley no Brasil.

O Fed anunciou recentemente que começará a reduzir o programa de estímulos monetários em janeiro, com impacto incerto sobre o mercado brasileiro. Para alguns banqueiros, o efeito já está precificado. Para outros, entretanto, a medida ainda poderá gerar alguns solavancos.

Ao mesmo tempo, a insatisfação com a política econômica persiste, o que pode manter os investidores estrangeiros pouco dispostos a apostar em novas ações na bolsa brasileira. “O necessário é que o governo seja muito firme na política fiscal”, observa Marcelo Porto, responsável pela área de renda variável do Morgan Stanley. “Se forem confirmados os sinais de uma política fiscal mais restritiva, vai soar bem.”

 Fonte: Valor Econômico de 27.12.2013.

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