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Investidores tentam barganhar deságio de bônus do Cruzeiro

Por Fernando Travaglini e Filipe Pacheco

Desagradou os investidores o tamanho do deságio proposto para os detentores de títulos no exterior do Banco Cruzeiro do Sul na oferta de compra lançada pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que administra a instituição sob intervenção. Segundo pessoas ouvidas pelo Valor, a oferta é bem pior do que se esperava e corre o risco de não ser aceita pelos investidores. Há um estoque de R$ 2,9 bilhões em bônus do banco no exterior, 58% de todo o passivo do Cruzeiro, e os credores têm até dia 12 de agosto para aceitar a proposta. O desconto inicial, que é de 49% em média, diminui caso a adesão ocorra até 28 de agosto.

É claro que a primeira reação de credores em qualquer renegociação de dívida é sempre ruim, pois a ideia é barganhar condições melhores. Mas o desempenho dos papéis do banco no mercado secundário de ontem refletiu esse sentimento. O preço dos bônus com vencimento em 2015 recuou 15 pontos percentuais, para 45% do valor de face. Os títulos subordinados (que têm força de capital e nenhuma preferência no caso de default) eram negociado a 30% do valor de face.

As reclamações dos investidores são variadas, mas o que mais incomodou foi o desconto desigual entre os bônus, proporcional ao prazo de vencimento e que pode chegar a 74% do valor de face para papéis mais longos. “A proposta é bem pior do que o mercado estava aguardando”, diz Carlos Gribel, diretor da Tradewire Securities.

“O FGC simplesmente pegou os preços dos papéis no mercado secundário e aplicou um desconto para cada vencimento. Em uma oferta de compra como essa, não dá para diferenciar os vencimentos, pois todos os ‘senior bonds’ são iguais em garantias”, completou Gribel, que opera papéis de empresas brasileiras no exterior.

Além disso, muitos não gostaram que a ameaça de liquidação está sendo usada para pressionar os investidores a aceitar as condições impostas pelo FGC. Mas os investidores não estão totalmente presos às determinações do fundo. Muitos acreditam que poderiam reaver cerca de 40% a 45% do valor no caso de uma liquidação do banco (“recovery value”), patamar superior aos oferecidos pelo FGC para alguns vencimentos.

Investidores se referem ao exemplo do Banco Santos, que foi liquidado em 2005 e cujos títulos começaram a ser pagos no ano passado. Foram 30% do valor em dólares até agora, que corresponde a 45% do valor de face, aproximadamente, com perspectiva de se receber ainda mais.

O único caso em que a oferta do FGC seria indiscutivelmente interessante é o dos títulos subordinados, com vencimento em 2020. Como são instrumentos híbridos de capital e dívida, ficam em último na fila de recebimento no caso de liquidação, ao lado dos acionistas.

A negociação não será fácil. A mensagem que tem sido passada aos investidores é que não há espaço para contra-proposta. Segundo uma fonte envolvida no desenho da operação, a oferta foi feita para evitar a liquidação, o que reduziria muito a possibilidade de recuperação desses ativos. “É de longe a melhor opção na mesa, diz.

Além disso, o tempo é escasso, já que o primeiro vencimento de bônus se dará em setembro. “O FGC é uma entidade privada e não vai socorrer a todos”, diz outra fonte.

Hoje o escritório de advocacia americano Bingham McCutchen, com sede em Boston, fará uma teleconferência com detentores de bônus do Cruzeiro do Sul, às 11h30 no horário brasileiro.

Segundo Alfredo Viegas, diretor de gestão para mercados emergentes da Knight Capital – que tem bônus do Cruzeiro em sua carteira -, os credores deverão se empenhar de forma organizada para pressionar o FGC. “Há espaço para que os credores deem uma certa dor de cabeça (ao FGC).”

“Certamente os detentores tentarão chegar até o máximo que puderem. Há uma percepção de que, no fim, a disputa se tornará política. Não é interessante para o FGC que o banco seja liquidado”, diz. “Há um componente moral.” Ele reconhece, no entanto, que no caso de uma liquidação o valor recuperado pode ser menor.

Para Carlos Legaspy, presidente da gestora americana Precise Securities, que comprou títulos do banco com diversos vencimentos, o escritório tentará angariar detentores de 10% da dívida, para, conjuntamente, barrarem os termos apresentados pelo FGC (o fundo exige a aceitação por investidores que representem 90% da dívida). “É muito mais fácil o [escritório] Binghan conseguir os 10% de credores insatisfeitos com a proposta do que o FGC conseguir os 90%.”

Valor Econômico de 16.8.2012.

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