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Incerteza de feriado na Copa mexe com juros

Por Lucinda Pinto

A proximidade da Copa do Mundo e o receio de que seja decretado feriado nacional nos dias de jogos da seleção brasileira mexeu com o mercado de juros nos últimos dias. A possível suspensão dos negócios em três dias em que o Brasil jogará – 12, 17 e 23 de junho apenas na primeira fase do torneio – acarretaria uma mudança no cálculo da taxa interfinanceira (CDI), referência para os contratos de juros negociados na BM&F. O chamado DI futuro representa as apostas do mercado financeiro para a trajetória da taxa básica de juros, a Selic.

Na tentativa de se antecipar à decisão para evitar perdas, grandes investidores ampliaram posições vendidas em DIs de curto prazo e assumiram posições também no mercado de opções. Movimento que explicou o recuo das taxas desses contratos e embaralhou as apostas para o rumo da Selic na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana.

Segundo relato de profissionais de mercado, um grande agente zerou posições de curto prazo, em um movimento equivalente a excluir dos preços a possibilidade de mais uma alta da Selic de 0,25 ponto nesta semana. “Claramente, foi um movimento de proteção, e não tinha nada a ver com o Copom”, diz um operador.

Por ser calculado a partir do número de dias úteis, o CDI sofreria uma mudança imediata caso venha a ser definido um feriado nacional de última hora. E, consequentemente, o ajuste teria impacto sobre todos os contratos que envolvem o indicador.

O efeito mais óbvio é no mercado de juros futuros, que tem como referência a taxa calculada pela Cetip e que representa o custo do dinheiro por um dia no mercado interbancário. A subtração de dias úteis implica na queda das taxas no mercado futuro de curto prazo. Foi o que ocorreu na sexta-feira e, ontem, foi revertido em razão de outro rumor, de que o feriado nacional não alcançaria o mercado financeiro.

Para se ter uma ideia, somente para DI com vencimento em julho deste ano, se o feriado fosse proclamado hoje, o impacto imediato seria de 0,55 ponto percentual na taxa (algo como 0,18 ponto por feriado decretado). Ou seja, esse contrato, que hoje é negociado a 10,80%, teria a taxa reduzida de uma só vez para 10,25%. A redução teria um efeito equivalente a cerca de R$ 300 milhões, somente nas posições nesse contrato na BM&F, segundo cálculos de profissionais.

Como para cada posição comprada alguém está vendido, não se trata de um prejuízo ou um lucro para o sistema, mas de uma “troca de mãos” desse valor, em um movimento que deve ser marcado por volatilidade. Alguém vai perder para que outro ganhe o mesmo valor. “O problema é a instabilidade, a dificuldade de montar posições a partir de fundamentos, porque há riscos de ordem técnica no radar”, explica um profissional.

O efeito de uma mudança no cálculo do CDI, entretanto, tem potencial para se alastrar pelo sistema financeiro, uma vez que operações atreladas ao indicador são bastante comuns. Além dos negócios no mercado futuro de juros, fundos de investimento e títulos de dívida no mercado de capitais têm o CDI como referência. Uma mudança repentina na taxa, portanto, tem potencial para agitar bastante o mercado.

Como os municípios onde os jogos serão realizados podem decretar feriados, cresce nos bastidores o rumor de que o governo federal poderia definir uma paralisação nacional. Nenhuma autoridade sinalizou, até o momento, com uma possibilidade concreta nesse sentido. Mas a ausência de negativa, por si só, já é razão para cautela. “O governo pode, em tese, decretar feriado faltando poucos dias para o jogo. Se não garantir que não fará isso, deixará o mercado suscetível a todo tipo de especulação”, afirma um operador.

Agentes comentam que uma possível saída para o caso de haver um feriado no meio do caminho é que a taxa do CDI da véspera seja repetida, evitando a mudança do número de dias úteis. Mas essa opção pode esbarrar em uma questão de insegurança jurídica, uma vez que a regra para a formação da taxa tem expressa a ideia de dias úteis. Outra alternativa seria não decretar feriado bancário nas datas dos jogos.

O Banco Central foi procurado pelo Valor para comentar o assunto, mas não respondeu à solicitação. A BM&FBovespa informou que não há até o momento definição sobre feriados em dias de jogos da Copa.

O risco de feriado já foi um elemento de instabilidade do mercado de juros em 2007, quando o governo considerou a possibilidade de decretar um feriado nacional em homenagem a Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro. O dia 11 de maio não virou dia santo. Mas, enquanto o assunto esteve em debate, a especulação movimentou o mercado de juros. Na ocasião, o BC confirmou, em nota, que “os feriados de âmbito nacional não são considerados dias úteis para fins de operações praticadas no mercado financeiro e de prestação de informações do Banco Central”.

Fonte: Valor Econômico de 1.4.2014.

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