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Holandês defende mais humanização dos arranha-céus

Folha de São Paulo, Italo Nogueira, 05/dez

ARQUITETO FOI UM DOS CONVIDADOS PELO EX-PRESIDENTE FRANCÊS NICOLAS SARKOZY PARA ELABORAR NOVO PLANO URBANO DE PARIS

Um vídeo animado de prédios empilhados de forma irregular criando um arranha-céu de 400 metros em Jacarta (Indonésia) surpreendeu a plateia do 9º Fórum Mundial de Criatividade, no Rio, no mês passado.

Foi com intensidade e convicção que o arquiteto holandês Winy Maas, 54, apresentou a materialização do seu binômio predileto: densidade e porosidade.

“Faço uma verticalização alternativa que inclui uma dimensão humana. Temos que quebrar a verticalização da forma como conhecemos hoje”, disse Maas à Folha.

Para ele, membro do premiado escritório MVRDV (é o ‘M’ da sigla), adensar cidades é uma das principais formas de “salvar o planeta”.

Prédios com uso misto (comercial e residencial) diminuem as distâncias percorridas pelo cidadão. Espaços vazios nos edifícios e planos diretores ajudam a humanizar e criar espaços de convivência, diz.

Ele foi um dos arquitetos convidados pelo ex-presidente da França Nicolas Sarkozy para elaborar um novo plano urbano para Paris.

Maas propôs a ampliação de parques e a redistribuição da atividade econômica na chamada capital francesa.

No edifício de Jacarta, ele radicalizou a sua proposta. Cada bloco do prédio planejado tem uma função e há até um hotel no topo do edifício.

As inúmeras varandas que surgem do desencaixe no prédio criam jardins.

O holandês, porém, rejeita a tese de que a verticalização é a única forma de adensar as cidades na atualidade.

“Há potencial que nos permite adensar mais sem arranha-céus”, afirma ele. Leia abaixo trechos da entrevista que o arquiteto de Winy Maas concedeu à Folha.

*Folha – Por que densidade e porosidade são tão importantes no seu trabalho?

Winy Maas* – Densidade nos ajuda muito hoje em dia a salvar o planeta. Deixamos espaço para agricultura, florestas, manejo da água, etc. Outro argumento é favorecer o intercâmbio, locais de encontro, além de ser mais eficiente. Cria uma composição mais ecológica do planeta.

Ao mesmo tempo que as pessoas querem densidade, estar perto do bar, da biblioteca, eles também querem um jardim, uma praça. Aí entra a porosidade. Se eu quero uma torre, como vou ter um jardim? Nossa arquitetura atual não combinou isso bem até hoje. É preciso transformar a arquitetura nessa direção para combinar essa densidade e o desejo humano por espaço.

Geralmente há rejeição a grandes torres, como a de Jacarta. Como o senhor vê essas críticas?

Nós fazemos edifícios de escala menor. Mas também faço uma verticalização alternativa que inclui uma dimensão humana. Temos que quebrar a verticalização da forma como conhecemos hoje e transformá-la em pequenas vilas empilhadas. Pode ser uma alternativa para encorajar a viver em locais densos de uma forma humana.

Mas é claro que a densidade não precisa ter sempre 200 metros de altura. Bairros europeus às vezes têm densidade que é quase o dobro das favelas do Rio. Há potencial que nos permite adensar mais sem arranha-céus como os feitos na Ásia. A polaridade [arranha-céu x prédio baixo] é perigosa, porque vira um jogo de sim ou não. Arquitetos e políticos têm que mostrar que sabem fazer, seja o que for, de uma forma humana.

As pessoas estão habituadas a viver num lugar e trabalhar em outro. Como combinar essas funções?

As pessoas não vão morar e trabalhar num mesmo prédio. Mas faço edifícios com áreas comerciais para que a cidade reduza a necessidade de transporte. É o que propomos na Grande Paris [grupo de arquitetos que propuseram integrar a periferia com o centro. Descobrir qual é a melhor mistura de diferentes elementos [é o desafio].

O senhor conhece alguma favela brasileira? Por onde começaria a trabalhar nelas?

Sim, fui à Providência. Sei do projeto que está começando para tornar esses ambientes mais seguros. Há muito trabalho a fazer. As construções foram feitas pelos próprios moradores e não têm nível profissional.

Atualizaria completamente o fornecimento de gás, energia e água. Tudo feito localmente seria o primeiro passo. Talvez fazer poços profundos e [gerar] eletricidade local, sem conexão com a rede [da cidade]. Uma espécie de favela autárquica poderia ser um projeto interessante.

Favelas existem há muito tempo, e algum investimento já foi feito. Mas há tantas. Por onde começar? É uma questão econômica.

Qual a maior dificuldade em adaptar cidades já existentes?

Depende da área. Algumas são menos densas e mais fáceis de transformar. Mas sempre há franjas em qualquer lugar, lugares abandonados que podem ser usados. O que está sendo feito, por exemplo, na zona portuária do Rio é necessário.

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