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Garnero não vai vestir Colombo

Um ano depois de anunciar a compra da marca de moda masculina, o fundo GGAC, do empresário Mario Garnero, cancela o contrato, alegando falta de pagamentos e de informações

Ao que tudo indicava, em meados do ano passado, Mario Garnero, o empresário paulista e importante interlocutor do Brasil com homens de negócios e políticos americanos, trocaria seus elegantes ternos feitos sob medida pelos da Camisaria Colombo, a maior rede de vestuário masculino nacional. Pelo menos, em relação à sua preferência de negócios. Em agosto de 2015, ele anunciou a aquisição da Colombo, por meio da Garnero Group Acquisition Company (GGAC), um fundo de investimentos criado nos EUA e braço de aquisições de seu banco de negócios no exterior, o Brasilinvest.

A transação avaliada em R$ 1,1 bilhão criaria a Garnero Colombo e ajudaria a solucionar a difícil situação financeira da rede de varejo, fundada em 1917, controlada pelos irmãos e herdeiros Álvaro e Paulo Jabur Maluf. A dívida, atualmente, se aproxima de R$ 1,5 bilhão. Os controladores chegaram a fazer três road shows nos EUA, com o banco suíço UBS, para apresentar a companhia aos investidores estrangeiros. Mas, na quarta-feira 20, quase um ano depois da celebração do contrato, um comunicado enviado pela GGAC ao mercado e à SEC, órgão que regulamenta o mercado de capitais americano, causou surpresa.

A companhia informava o cancelamento do negócio, alegando que a Colombo não havia cumprido uma série de exigências. Agora, a GGAC ameaça tomar medidas judiciais para o ressarcimento de danos causados com o fim do negócio. Pelo acordo original, os irmãos Maluf deveriam pagar, até o dia 10 de junho deste ano, US$ 30 milhões para terem direito a uma fatia de 25% da empresa resultante da fusão e se manterem no comando do dia a dia da rede. Como o prazo não foi cumprido e com a piora do mercado varejista brasileiro neste ano, Mario Garnero aceitou diminuir o valor para US$ 10 milhões, a serem pagos até o dia 20 de junho.

Mas nem esse aporte aconteceu. No dia 4 de julho, por meio de carta anexada aos autos do processo e enviada à Colombo, o advogado David Ann Miller, do escritório nova-iorquino Graubard Miller, representante de Garnero, explica quais seriam as brechas de contrato em que a família teria incorrido. A GGAC teria cobrado, no dia 8 de fevereiro, o envio à SEC de relatório financeiro auditado relativo ao ano fiscal de 2015, o que não aconteceu até a data da carta. Outras informações sobre o estado dos negócios estariam sendo sonegadas.

Uma fonte próxima do processo também reclama que a dívida da Colombo, a qual teria sido informada que estava em R$ 700 milhões, na época da assinatura do contrato, foi revisada para R$ 1,5 bilhão. Há suspeita de que parte do valor seria de dívidas pessoais dos irmãos, relacionada à recompra, em fevereiro de 2015, de 49,9% da Colombo que haviam sido vendidos para a Gávea Investimentos, gestora de fundos do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. Na época, interlocutores do mercado comentavam que os irmãos seriam “incontroláveis”.

A Colombo alega que os motivos para o fim do contrato com Garnero são outros. “O investimento foi planejado em fevereiro de 2015. O Brasil era outro”, diz o advogado Pedro Bianchi, do escritório Felsberg Advogados. “O grupo GGAC não encontrou investidores e a Colombo foi buscar alternativas.” A versão é contestada pelo fundo de Garnero, que, na data de cancelamento do acordo, afirmava ter US$ 143 milhões captados. A alternativa para a Colombo foi uma renegociação com os seus credores. 

Cerca de um mês antes do rompimento com Garnero, no dia 10 de junho, a empresa anunciou que fechou um acordo extrajudicial para alongar a sua dívida com os bancos – que incluem Itaú, HSBC, Brasil Plural, Santander e Banco do Brasil, somando R$ 700 milhões, mais R$ 197 milhões com a Cotia Trading –, transformando os débitos em uma debênture conversível. A GGAC alega que nunca teve conhecimento dessas negociações e, como controladora que deveria ser da empresa, nem as teria autorizado. Mesmo a presença entre os credores do fundo de investimentos Brasil Plural Special Situations – que teria comprado do Gávea a dívida pessoal dos irmãos – seria desconhecida. Procurado, Mário Garnero não deu entrevista.

Independentemente das reclamações de Garnero e de outros credores não financeiros que não aderiram ao acordo, o plano de reestruturação já mudou a varejista. Segundo o processo capitaneado pelo Brasil Plural e pelo escritório Felsberg Advogados, a empresa terá cinco anos para pagar a sua dívida com os bancos, e Warley Pimentel, sócio do banco, assume a posição de presidente do grupo Colombo. “Agora, somos uma das empresas mais bem estruturadas do setor”, disse à DINHEIRO Álvaro Jabur Maluf Júnior, no começo de julho.

“Depois de um tempo voltados para dentro, teremos fôlego para investir no negócio e estamos prontos, com mercadoria nas lojas, para o Dia dos Pais.” De 2014 para cá, o faturamento caiu de R$ 800 milhões para R$ 500 milhões anuais e mais de 50 das 434 lojas foram fechadas. “Vamos ficar com 320 lojas”, diz Maluf. No último mês, desde a renegociação financeira, a curva se inverteu e as vendas da empresa voltaram a crescer, em torno de 30%. Isso mostra que o imbróglio todo não prejudicou a marca junto ao seu público consumidor, avalia o analista de varejo Alberto Serrentino, dono da consultoria Varese Retail.

“O dano para a marca é muito pequeno. A moda masculina é menos suscetível a mudanças de tendências, e o cliente só percebe problemas se há desabastecimento”, diz. O consultor, no entanto, alerta que há risco da empresa sofrer dificuldades de crédito, o que pode ser especialmente perigoso para quem vende para a classe C e precisa de liquidez para financiar as compras de seus clientes. Uma coisa é certa: Mario Garnero não estará na fila dos interessados.

Fonte: http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/negocios/20160729/garnero-nao-vai-vestir-colombo/398302

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