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Fundos ineficientes demais, e não grandes demais, para falir

Por James Saft

 

Não é verdade que o setor de gestão de investimentos é grande demais para falir, mas pode ser verdade que ele seja ineficiente demais para o nosso grau de tolerância.

Ao destacar o crescimento meteórico do setor mundial de gestão de investimentos, que reúne todas as condições para mais que quadruplicar de tamanho até 2050, para US$ 400 trilhões, Andy Haldane, diretor executivo de estabilidade financeira do Bank of England, o banco central do Reino Unido, argumentou que os fundos poderão necessitar de supervisão mais atenta e próxima por parte dos órgãos fiscalizadores.

“O tamanho desses fundos implica que problemas de solvência em um gestor de ativos podem agravar atritos nos mercados financeiros, por meio, por exemplo, de vendas forçadas de ativos a preços de liquidação”, disse Haldane, em discurso no início de abril em Londres.

“É possível identificar um conjunto de convenções ou práticas regulatórias no mercado como um todo que podem determinar um comportamento idêntico tanto dos gestores de ativos quanto de sua base de clientes institucionais. Isso pode transformar atritos idiossincráticos no mercado em colapsos sistêmicos do mercado”, destacou.

A ideia de que gestoras de investimentos sejam grandes demais para falir, de que seu grande porte as transforma pura e simplesmente em uma ameaça especial, carece, no melhor dos casos, de comprovação, como reconhece Haldane.

As gestoras de ativos, em geral, não apenas aplicam nível muito menor alavancagem do que os bancos, como também operam principalmente com dinheiro de outros e, por isso, as gestoras que tombam são mais fonte de aflição privada do que de sofrimento social.

E embora tenha havido casos notáveis de grandes administradoras de investimentos causarem graves problemas e mau funcionamento no mercado, há pouca dúvida de que elas não são imunes às consequências de seus atos, da mesma forma que os maiores bancos tradicionais.

A título de exercício mental, imagine um gestor de ativos que tenha cometido uma grande série de equívocos e previsões equivocadas, como o Citigroup, nos últimos 15 anos. Isso não aconteceria, porque uma instituição desse tipo teria, há muito tempo, deixado de existir. Ou, no melhor dos casos, mergulhado na insignificância.

O Citibank recebeu pacote de socorro financeiro federal nos EUA em novembro de 2008, tendo o governo assumido uma participação acionária de 36%, disponibilizado uma linha de crédito de US$ 45 bilhões e garantias cobrindo prejuízos superiores a US$ 300 bilhões.

Isso não significa, de forma alguma, que os gestores de recursos não representam algum tipo de ameaça, muito menos que fizeram um bom trabalho de alocação de capital de maneira que ajude a economia e garanta aposentadorias. Muito pelo contrário, sob muitos aspectos.

Gestores de recursos, e seus clientes, tendem a perseguir retornos, exacerbando as avaliações de preço equivocadas do mercado, como as que provocaram as duas recessões passadas e que agora ameaçam causar uma terceira. Eu diria que isso é, predominantemente, resultado de uma combinação de fragilidade humana, do autointeresse dos gestores de fundos focados em suas próprias carreiras e de uma regulamentação mal pensada que produziu resultados terríveis.

Um dos principais perigos criados pela gestão de ativos é o efeito manada, fenômeno visto quando muitos gestores comportam-se da mesma forma ao mesmo tempo. A febre por ações do setor de internet no fim dos anos 90 é um exemplo excelente, assim como a atual febril adesão às empresas de mídias de relacionamento social.

Por que surge o efeito manada entre os gestores de recursos? Porque os gestores não administram apenas dinheiro de clientes, também administram suas próprias carreiras. Se uma bolha em algum determinado setor vem impulsionando um ótimo desempenho no mercado, o gestor que não adere à manada, o faz por sua própria conta e risco. Um gestor pode facilmente ser demitido se ficar abaixo do desempenho do mercado, mesmo que seja por razões sensatas.

A ironia é que os bancos centrais estão bastante conscientes desse fenômeno e o usam, eles próprios, como um instrumento por meio do qual implementam políticas. Narayana Kocherlakota, presidente do Federal Reserve Bank de Minneapolis, sustentou esse ponto um ano atrás, argumentando que juros muito baixos poderão ter de persisitir por um bom tempo para que o Fed alcance seus objetivos: “Por um considerável período de tempo, o Fomc [comitê de política monetária do Fed] poderá ser capaz de atingir os seus objetivos macroeconômicos em associação com sinais de instabilidade nos mercados financeiros”.

Isso não mudaria a natureza humana, mas se quisermos melhor gestão de ativos, talvez devêssemos ter melhor atuação dos bancos centrais. Estando, como estamos, no que poderá revelar-se a véspera de outra crise de instabilidade no mercado, esse é um ponto importante.

Haldane também detalha o erro relativamente monumental cometido por muitos fundos de pensão durante a mais recente crise. Embora a regra de gestão prudente de fundos ensine que ao sofrer um “crash” você deveria, se tiver dinheiro para isso, comprar um pouco mais do que acabou de despencar e vender um pouco do que não caiu, vimos exatamente o oposto. Fundos de pensão bem lastreados, que dispunham de dinheiro suficiente para cumprir suas obrigações, reduziram drasticamente suas carteiras de ativos, ao passo que aqueles sem recursos suficientes tenderam a ampliar seus portfólios.

Os fundos confortavelmente capitalizados estavam reduzindo riscos, ao mesmo tempo em que os relativamente apertados assumiram mais riscos. Isso não é bom, seja para a economia como para os poupadores. Reformas parecem muito necessárias, mas será preciso promover uma profunda mudança na abordagem dos bancos centrais para que produzam boas consequências.

Valor Econômico do dia 23.04.2014  

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