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Fundo Verde renova aposta em desvalorização do real

O gestor do fundo Verde, Luis Stuhlberger, reafirmou sua expectativa de depreciação do real no relatório “Comentários do gestor” referente a fevereiro, divulgado ontem. A famosa carteira da Credit Suisse Hedging-Griffo (CSHG) teve prejuízo de 1,25% no mês passado, gerado principalmente pela posição em câmbio, seguida pelas aplicações em renda fixa.

“Continuamos acreditando na tese de depreciação do real”, escreveu Stuhlberger. O gestor considerou que em fevereiro houve uma das mais notáveis reversões de fluxo para mercados emergentes de que se lembra. “É como se, em um passe de mágica, o medo de ‘tapering’ e ‘tightening’ desaparecesse, e o fluxo para renda fixa voltasse a todo vapor”, afirmou, em referência ao processo de retirada dos estímulos e consequente aperto monetário nos Estados Unidos.

“O humor dos gringos para inflows [fluxos] de curto prazo muda muito e muda rápido”, escreveu Stuhlberger, considerando que a disputa entre fundamentos e momento de mercado é um dilema clássico em gestão de recursos. “Eu já passei por isso diversas vezes ao longo de minha vida profissional”, afirmou. Ele questiona a sustentabilidade fiscal de longo prazo do país e afirma que o modelo “está dando um suspiro” pelo comprometimento do governo em entregar um superávit primário igual ao do ano passado.

Para fundamentar a tese de depreciação do real, Stuhlberger apresentou um estudo desenvolvido pelo time de economistas da casa, no qual diz basear seu ponto de vista.

A partir da dinâmica de preços de câmbio e juros futuros, aponta o estudo, um observador poderia ser levado a concluir que houve uma mudança significativa de cenário no Brasil, para melhor. “A leitura mais detalhada dos dados até o momento, entretanto, sugere o contrário”, contesta a carta.

Os economistas da CSHG criticam o crescimento da participação do consumo na economia – de 5,6 pontos percentuais desde a crise financeira global, para 84,5% do PIB – calcado em grande parte em crédito subsidiado dos bancos públicos. O relatório aponta que a política econômica está reduzindo a já baixa taxa de poupança doméstica, diante do objetivo primordial de elevar a remuneração do trabalho às custas da remuneração do capital.

A taxa de investimento atual do Brasil é incompatível com o quadro de poupança, diz o estudo. O livro-texto aponta que a melhor resposta seria uma contração fiscal relevante, considera. “No último ano, tivemos exatamente o contrário, e não parece ser possível uma alteração muito significativa para 2014, ano eleitoral”, apontam os economistas. “E é justamente no campo fiscal que temos as maiores preocupações”, completam.

O relatório critica o decreto de contingenciamento anunciado pelo governo em fevereiro, que aponta gasto público federal de R$ 1,222 trilhão em 2014. “Apenas a execução ao longo do ano, mês após mês, trará o veredito final sobre a possibilidade de cumprimento das intenções. O primeiro passo, de janeiro, foi para trás”, considera.

A evolução dos déficits fiscal e externo, aponta o estudo, mostra uma situação atual mais delicada hoje do que há poucos meses. O ajuste nesse quadro em 2002, consideraram, veio com uma taxa de câmbio muito mais desvalorizada, que jogou o crescimento para baixo, reduzindo o déficit externo, junto com um arrocho monetário relevante, que resultou numa melhora importante da taxa de poupança doméstica, além de uma contração fiscal relevante. “Ao que tudo indica, estamos diante de uma situação (qualitativa) muito semelhante, ainda que menos dramática.”

O relatório menciona ainda os riscos de racionamento de energia elétrica e de colapso da Argentina, considerando que “nosso país vizinho ao Sudoeste nos dá um ensinamento grátis: o que não fazer”. Os economistas completam: “Oxalá tenha reverberação por aqui”.

A conclusão da carta é que dá para ficar otimista com o Brasil no médio prazo pelas suas potencialidades. “Mas aparentemente teremos de passar por uma turbulenta arrumação de casa no caminho. Apertem os cintos!”, sugere o relatório.

Na ponta da renda variável, a carteira de ações rendeu em fevereiro 1,61%, enquanto o Ibovespa perdeu 1,14%. A maior parte do prejuízo no ano veio do Brasil, enquanto as posições no exterior tiveram perdas marginais, segundo o relatório.

No ano, até fevereiro, o Verde tem prejuízo de 1,31%, contra 1,62% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI). No ano passado, a carteira ganhou 18,10%, bem acima dos 8,06% do indicador de referência para aplicações conservadoras.

Fonte: Valor Econômico do dia 12.03.2014.

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