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Fluxo de curto prazo tende a prosseguir para o Brasil

Por Eduardo Campos, Lucas Marchesini, Téo Takar, Silvia Rosa, Lucinda Pinto e Antonio Perez

A participação dos estrangeiros na dívida pública mobiliária bateu novo recorde em fevereiro ao somar R$ 343,18 bilhões (17,38%). Pela primeira vez, a fatia detida por essa classe de investidores ultrapassou a das instituições de Previdência, que detinham R$ 335,45 bilhões, ou 16,99% da dívida. “O que temos observado é uma entrada gradual e contínua” de recursos, observou o coordenador-geral de operações da Dívida Pública, Fernando Garrido.

A depender da reação dos mercados, ontem, ao rebaixamento da nota de classificação de crédito soberano pela Standard & Poor’s, o fluxo de capital externo para o Brasil tende a prosseguir no curto prazo, justamente pela leitura de que o retorno oferecido pela renda fixa brasileira compensa o risco. O rebaixamento já tinha sido embutido nos preços dos ativos. Embora muitos admitam que não esperavam que S&P anunciasse o corte do rating brasileiro antes das eleições, o fato é que a notícia não pegou ninguém de surpresa.

Ao contrário, trouxe até certo alívio, uma vez que afastou, pelo menos até o fim do ano, o risco de o Brasil perder mais um degrau e deixar de ser grau de investimento, já que a perspectiva da nota foi alterada de negativa para estável. E foi justamente o fluxo de capitais estrangeiro que garantiu, mais uma vez, queda ao dólar e aos juros, e a sétima alta consecutiva ao Ibovespa. Esse movimento de recursos em direção ao Brasil também ficou evidente no detalhamento da dívida pública de fevereiro, feito ontem pelo Tesouro Nacional.

Durante a entrevista coletiva para comentar os números, Garrido, passou a mensagem de que a demanda por ativos brasileiros segue firme no mercado, com destaque para a participação dos investidores estrangeiros.

Em resposta a questionamentos sobre o tema, Garrido apontou que, mesmo após a decisão da S&P, continua se observando um “mercado positivo” com relação à demanda. Como exemplo, Garrido apontou que, na oferta de Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B) feita ontem, as taxas pagas pelo mercado ficaram 5 pontos-base abaixo do fechamento de segunda-feira. “O mercado continua com demanda positiva”, disse.

Em fevereiro, a Dívida Pública Federal (DPF) subiu 1,03% sobre janeiro, somando R$ 2,067 trilhão. Pelas metas estabelecidas dentro do Plano Anual de Financiamento (PAF), a dívida deve oscilar entre R$ 2,170 trilhões e R$ 2,320 trilhões em 2014. Já a Dívida Pública Mobiliária Interna teve seu estoque aumentado em 1,27% para R$ 1,974 trilhão em fevereiro.

O rebaixamento da nota brasileira não deve reverter o fluxo de recursos externos de curto prazo, mas pode atrapalhar o ingresso de capital de longo prazo, destinado, por exemplo, a investimentos, segundo avaliação do ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central e atual sócio do fundo ICE Canyon LLC, Paulo Vieira da Cunha.

“Dada essa incerteza toda que ronda a economia e que resultou no rebaixamento da nota do Brasil, tenho sentido que tem muita gente que está dilatando a decisão [de investimento]. É um momento delicado e, quem estava em cima do muro, talvez permaneça ali ou faça a decisão pelo outro lado do muro”, afirma Vieira.

Garrido também apontou que março pode registrar emissão recorde de títulos, já que o total vendido em ofertas públicas ao longo do mês passa dos R$ 50 bilhões. “Isso mostra que os investidores continuam muito dispostos a comprar títulos da dívida pública. Um volume grande de investidores julga que o momento é adequado e que as taxas são atraentes”, disse.

Questionado se são elevadas taxas e não os fundamentos da economia que chamam os compradores, Garrido respondeu que toda a decisão de investimento envolve uma avaliação de risco e retorno. “O que a gente pode concluir é que quando tem aumento expressivo da demanda, os investidores estão julgando que para risco existente, a taxa está bastante atraente”, disse.

Para o diretor de mercados emergentes e estratégia do Citi em Londres, Luis Costa, o apetite pela renda fixa brasileira continua grande em função justamente da atrativa taxa básica de juros, hoje em 10,75% ao ano, isso sem falar nas taxas longas, nas casa dos 13% anuais.

A reação dos mercados à decisão da S&P de rebaixar o rating do Brasil confirmou que tal fato já estava praticamente “no preço” dos ativos e que não deve reverter o processo de atração de fluxo de capitais para o Brasil, avalia o economista-chefe do BES Investimentos, Jankiel Santos.

“O mercado já havia feito a correção antes”, afirma o economista, observando que o “Credit Default Swap” (CDS, derivativo que funciona como garantia contra um eventual calote) do Brasil era negociado ontem com um prêmio de risco de 174 pontos, ante 188,8 na segunda-feira.

“Houve um aumento de aplicações destinadas ao Brasil nos últimos dias, o que provocou alguma melhora dos preços. Esses investidores já tinham o risco do corte na conta e, por isso, não acredito numa reversão desse movimento”, acrescenta Santos.

Tony Volpon, diretor e chefe de pesquisas para mercados emergentes das Américas da Nomura Securities, também considera que “o evento já estava precificado e, além disso, a atual taxa de juros praticada nos mercados compensa os riscos que estão sendo discutidos pela S&P”.

“O mercado está em um momento de humor um pouco mais positivo com o Brasil e não acredito que essa percepção vá mudar neste momento”, afirma Volpon.

E a reação dos mercados confirmou a relativa tranquilidade com a decisão da S&P. O dólar fechou em queda de 0,69% a R$ 2,3060, diante de fluxo positivo de recursos.

Na bolsa, o Ibovespa subiu 0,39%, aos 48.180 pontos, com volume de R$ 5,732 bilhões. Desde 14 de fevereiro, a bolsa brasileira não fechava acima da linha dos 48 mil pontos. E desde agosto do ano passado não registrava uma sequência tão longa de valorizações, com sete pregões positivos.

Entre as principais ações do índice, Vale PNA ganhou 1,65%, a R$ 27,61; Petrobras PN subiu 0,55%, para R$ 14,48, e Itaú PN avançou 0,55%, a R$ 32,45.

No mercado de juros futuros, o contrato de DI com vencimento em janeiro de 2017 caiu de 12,63% para 12,52%.

Fonte: Valor Econômico do dia 26.03.2014.

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