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Fator eleição ganha relevância para desempenho de elétricas em bolsa

Por Tatiane Bortolozi

As ações do setor elétrico ensaiam uma recuperação desde o mês passado, às vésperas da divulgação de pesquisa que mostrou perda de popularidade da presidente Dilma Rousseff. O Índice de Energia Elétrica (IEE), que amargava perdas de 6,7% do início de janeiro até o dia 27 de março – quando foi publicado levantamento do CNI/Ibope sobre as intenções de voto para as eleições presidenciais -, refletindo principalmente o risco de racionamento, hoje cai apenas 2,52% no ano. Em abril, o fator político passou a pesar mais do que o risco de um apagão para o desempenho das elétricas em bolsa.

O caso mais marcante é o de Eletrobras. A ação ordinária da empresa de energia tem a maior valorização do Ibovespa no ano, de 30,66%, superando altas relacionadas a eventos como as da incorporadora Brookfield (26,96%), que recebeu uma proposta da controladora para fechar capital, e da ALL (27,82%), cuja aquisição pela Rumo, braço de logística da Cosan, apenas aguarda a aprovação de autoridades regulatórias.

A disparada da Eletrobras em bolsa começou antes mesmo da divulgação da pesquisa CNI/Ibope, que mostrou que a avaliação positiva do governo Dilma havia caído de 43% para 36%, e a negativa, subido de 20% para 27%. Desde a data do levantamento (27 de março), a ação ON da elétrica sobe 32,47%.

O papel preferencial classe B da Cesp, que avança 22,88% no ano, também está entre as maiores altas do Ibovespa em 2014. A empresa, ao decidir não renovar as concessões de mais da metade de suas licenças de geração, afastou-se das influências do governo e passou a ter na distribuição do lucro aos acionistas seu principal atrativo.

“Esperamos outra grande distribuição sobre o lucro [da Cesp] em 2014, impulsionado pelas vendas no mercado de curto prazo (spot), a ser paga em 2015”, destaca o HSBC, em relatório. Neste ano, o pagamento de R$ 848 milhões em dividendos já está garantido.

Enquanto Cesp e Eletrobras figuram entre as maiores altas do ano, o setor de energia não vai tão bem e ainda acumula quedas desde janeiro. É marcante, porém, que as perdas trazidas pelo risco de um apagão tenham sido amenizadas desde que as primeiras pesquisas eleitorais indicaram a redução dos índices de aprovação do atual governo.

“O tempo estava quente no começo de fevereiro e a chance de racionamento foi precificada nas ações”, afirma o analista Luiz Caetano, da Planner Corretora. No entanto, “depois da retomada do Ibovespa, com a perda de popularidade de Dilma, o preço das ações voltou ao patamar anterior”, afirma Lenon Borges, da Ativa Corretora. Ainda segundo Borges, se o mercado interpretasse que a popularidade da presidente diminuiria em caso de racionamento, a restrição na oferta de energia poderia até mesmo ter efeito positivo sobre as ações de elétricas. “É um caso a se pensar”, diz ele.

O forte crescimento do consumo nos últimos anos, os atrasos na entrada em operação de usinas e a falta de chuvas ameaçam levar o país a uma restrição severa de fornecimento de energia em 2015, caso não sejam adotadas medidas obrigatórias de contenção neste ano, afirmam especialistas. O governo, porém, não quer arriscar perder popularidade.

O BTG Pactual lembra que, na história recente do Brasil, a seca atual é a pior desde os anos de 2000/2001. Naquela época, o programa de racionamento levou os eleitores a mudar sua posição nas urnas, ressalta o banco. “Vemos como real o risco de os tomadores de decisão brasileiros adiarem esse plano, mesmo que indicadores técnicos sugiram que ele seja necessário”, afirmam os analistas Antonio Junqueira e João Pimentel, em relatório.

No fim das contas, toda a economia será prejudicada pela retração da demanda causada por um racionamento. No curto prazo, porém, entre as opções mais seguras, destacam-se as empresas de papel e celulose e as produtoras de açúcar e álcool, que garantem boa parte da geração própria de energia e ainda podem vender o excedente no mercado de curto prazo. Para as siderúrgicas, os efeitos de uma eventual redução compulsória de energia também são limitados pelos contratos de compra de longo prazo e as usinas próprias.

“A questão do racionamento não é um problema de produção. Muito mais importante é o quanto prejudica a demanda e desacelera toda a economia”, diz Caetano, da Planner. No varejo, por exemplo, há margem para manobra: desligar ar-condicionado, escadas rolantes ou encurtar o expediente. Mas, no longo prazo, será necessário um grande esforço para retomar a confiança do consumidor.

Fonte: Valor Econômico de 22.4.2014.

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