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Emergente (II): alívio ou oportunidade de compra

Por Paulo Clini

Após um período sob forte pressão por parte dos investidores internacionais, os mercados financeiros dos países emergentes finalmente se tranquilizaram ao longo das últimas semanas. Após uma rodada generalizada de desvalorização cambial, alta de juros e queda nos mercados acionários, foi possível observar mais recentemente alguma melhora, principalmente no mercado de moedas. Interessante observar que esse processo de recuperação foi ainda mais agudo nos chamados “5 frágeis”, grupo de países composto por Índia, Turquia, Indonésia, África do Sul e Brasil – este último, mesmo após o recente rebaixamento na nota de crédito pela Standard & Poor’s.

É bem verdade que uma parte importante desta reviravolta no humor dos investidores pode ser explicada pela resposta desses países a um aumento abrupto na aversão ao risco dos investidores globais. Turquia, Brasil, África do Sul, Índia, entre outros, foram países que puxaram juros para tentar contrapor o efeito negativo sobre a moeda local deste ambiente mais adverso. A ideia de que seus governantes ainda possuam algumas ferramentas disponíveis para contrapor picos de estresse em seus mercados desarmou um pouco os ânimos daqueles que apostavam em uma deterioração abrupta nos mesmos.

Será que a boa performance recente dos países emergentes é um sinal de que o pior já passou e que, a partir de agora, o comportamento destes mercados deverá ser consistentemente superior aos dos desenvolvidos? Seria este o início de um processo no qual os investidores globais voltam a se interessar pela classe de ativos e, em particular, pelo Brasil?

Na verdade, o cenário corrente poderia muito bem ser caracterizado como sendo um pouco mais do mesmo. Receios em relação à velocidade do “tapering” nos EUA, à desaceleração na China e aos atuais problemas geopolíticos continuam a pesar sobre a classe de ativos. A resposta de alguns países parece apenas ter aliviado os mercados momentaneamente, e ainda parece ser muito cedo para apostar na volta consistente do investidor global.

Como o Brasil está inserido neste ambiente? Dá para apostar em uma melhora consistente nos preços dos ativos brasileiros? Infelizmente, conforme a última sinalização da própria S&P, a resposta ainda parece ser não. E a culpa, pelo menos em grande parte, continua a ser nossa. Em um artigo que escrevi para esta coluna há pouco mais de um mês, argumentei que os preços dos ativos brasileiros seriam influenciados por dois fatores: um externo (China) e outro doméstico (questão fiscal). Nenhum dos dois riscos pode ser descartado hoje pelos investidores.

A China continua lidando com os riscos de seu “shadow banking system” e com a desaceleração recente da própria economia. A questão fiscal ainda permanece uma incógnita, pois o pacote fiscal anunciado no fim de fevereiro não foi crível o suficiente para reverter as expectativas dos agentes econômicos. É bem verdade que o anúncio também não precipitou uma enxurrada de vendas de ativos brasileiros. Em vez disso, deixou um uma percepção de que a capacidade do governo de executar os cortes previstos é fundamental para o sucesso do pacote. A priori, não dá para afirmar que o governo irá ou não cumprir o prometido. O tempo e capacidade de execução vão mostrar se o governo está sendo sincero ou não em suas intenções. Enquanto não houver evidências mais fortes em uma ou outra direção, nenhum investidor vai “pagar antecipado” por algo ainda incerto.

Acontece que, nesse ínterim, apareceu um terceiro fator bem importante: o risco de falta de energia elétrica. O governo tem sido bastante vocal em dizer que esse risco não existe. Infelizmente (para o governo), parece quase impossível ser tão assertivo. A possibilidade de racionamento depende da quantidade de chuvas nas próximas semanas. E a incidência de chuvas é um evento de natureza probabilística. Não é possível dizer com certeza se vai chover o suficiente ou não. O problema é que o estrago já foi feito, independentemente da decretação de algum racionamento ou não. E o canal de comunicação do racionamento (ocorra ele ou não) com a economia real e, consequentemente, também com os mercados financeiros são as expectativas futuras dos agentes econômicos. A simples possibilidade de que falte energia em algum momento no futuro já exerce, por si só, um impacto bastante negativo sobre a percepção em relação ao crescimento e inflação do país daqui para frente. Não é difícil imaginar que, no caso de falta de energia (independentemente da decretação de um racionamento formal ou não), o país passe por um processo de estagflação. Ora, apenas a mera chance de que isso venha a ocorrer já acarreta reflexos concretos sobre o ambiente de negócios. Que empresário estaria disposto a investir mais sem garantia de continuidade de seus negócios?

Assim, 2014 parece já ser um ano perdido, não importa o que venha realmente acontecer. O problema é que as dificuldades de 2014 têm repercussão sobre 2015. A necessidade de reajuste relevante do preço de energia (podendo chegar até a 30%) devido aos despachos das usinas térmicas é só um exemplo. E os mercados financeiros tendem a antecipar tais movimentos.

Se São Pedro resolver ajudar o governo brasileiro, fazendo com que a quantidade de chuvas nas próximas semanas seja muito acima da média histórica, afastando assim o risco de racionamento no curto prazo, os mercados de risco locais (bolsa, juros longos e câmbio) até podem performar relativamente bem por um período curto de tempo. Acontece que as questões globais (desaceleração na China, “tapering” nos EUA, Ucrânia) e os mesmos velhos problemas internos (fiscal e inflacionário, por exemplo) ainda estarão presentes – e sem resposta clara. Infelizmente, a conclusão é que ainda é muito arriscado apostar em uma recuperação consistente em nossos mercados.

Paulo Clini é diretor de investimentos da Western Asset.

Fonte: Valor Econômico de 27.3.2014.

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