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Devedor da Trendbank tomou crédito no BVA

A disputa pela gestão de um fundo de recebíveis (Fidc) da factoring Trendbank ganha novos capítulos, ao mesmo tempo em que histórias sobre as empresas que estão no portfólio esbarram em bancos que sofreram intervenção do Banco Central, como o Banco BVA e o Cruzeiro do Sul, e em escândalos recentes no país envolvendo desvio na Delta e na Petrobras.

As possibilidades de recuperação dos créditos do fundo, que está nas mãos em grande parte de fundos de pensão, parece pequena. Depois que a Trendbank foi à Justiça para suspender a assembleia que elegeu a Brasil Plural como nova gestora do fundo, a administradora Planner marcou nova assembleia para o dia 25. O objetivo, explica o diretor financeiro da Planner, Artur Figueiredo, é discutir com os cotistas cenários possíveis se a liminar obtida pela Trendbank não for cassada e o fundo permanecer sem um gestor.

O Fidc levantado pela TrendBank soma R$ 407 milhões e tem inadimplência superior a 80% do portfólio. Inicialmente era gerido pela Verax, ligada ao Cruzeiro do Sul, que foi substituída pela Trendbank em 2012. De acordo com uma fonte, esse dado por si só evidencia que os papéis possuem graves problemas. Conforme informações obtidas pelo Valor, as avaliações sugerem que estão no portfólio duplicatas de empresas de um mesmo grupo que podem ter emitido esses papéis umas contra as outras e vendido para o Fidc.

Essas empresas têm como sócio Alessandro Peres Pereira, dono da distribuidora e transportadora Petrosul, e pessoas de sua família. Pereira é sócio de Adolpho Mello, dono da Trendbank, na Usina Bioverde, um projeto que captou uma dívida no BVA superior a R$ 70 milhões. Esses títulos de dívida foram vendidos pelo BVA a vários fundos no mercado que têm como cotistas, em sua maioria, fundos de pensão, entre eles o Fidc Trendbank. Também a Petrosul possui dívidas originadas no BVA de R$ 40 milhões.

Estão na carteira do Fidc da Trendbank recebíveis, de R$ 30 milhões, além da Petrosul, de empresas chamadas Jatobá e Laima, que também têm os Peres Pereira como sócios. São essas as companhias que teriam emitido papéis de dívida umas contras as outras e vendido para o Fidc que tem fundos de pensão como cotistas.

Também está no portfólio papéis do “Grupo Rock”, que reúne a Dream Rock Entretenimento, e Rock Star Marketing e Produções, comandadas por Adir Assad, acusado de participar do desvio de recursos da empreiteira Delta, de Fernando Cavendish. A Rock Star também aparece nas denúncias que envolvem o esquema de desvio de recursos na Petrobras. Essa empresa de marketing era organizadora da Stock Car – bancos como o Cruzeiro do Sul e BVA, além da Trendbank já patrocinaram essas corridas de carro.

Auditoria realizada no Fidc apontou que há na carteira cópias de notas promissórias do Grupo Rock sem suporte documental que as relacione ao fundo. Presume-se que possam ser notas promissórias recebidas em garantia de operações de fomento mercantil do próprio Trendbank.

A auditoria identificou pontos de fragilidade na recuperação dos direitos creditórios cedidos ao fundo, especialmente pela falta de documentos que servem de lastro para os créditos. Esses documentos são responsabilidade de guarda da Trendbank.

Foi por conta disso que a factoring acabou impedida de votar na assembleia que elegeu novo gestor. A desconformidade, informou a Planner, dispara a obrigação da Trendbank de responder perante o fundo pelos direitos creditórios cedidos. Logo, o interesse dos cotistas é fazer com que o valor recebido pelo fundo seja o maior possível e o interesse da Trendbank é o oposto, o de reduzir os valores recuperados.

A Trendbank foi à Justiça alegando que não presta mais serviços ao fundo e pode votar. A factoring possui cotas subordinadas – que recebem os recursos por último. Se a Trendbank tivesse votado, a gestora Vila Rica, cujos sócios têm ligações com o BVA, seria a escolhida. Procurados, Trendbank e Alessandro Peres Pereira não responderam o pedido de entrevista. A Brasil Plural não comentou.

Fonte: Valor Econômico de 17.4.2014.

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