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Cruzeiro do Sul 'puxou' alta de ações da Telebrás

Por Fernando Torres

O Banco Cruzeiro do Sul vinha “sustentando” as cotações da Telebrás desde meados do ano passado, aparentemente numa tentativa de melhorar os resultados divulgados pelo banco, sob intervenção desde o início de junho, após sofrer acusação de ter inflado o balanço com operações de crédito inexistentes.

Dono de 6% do total de ações ordinárias da Telebrás, o banco teve ganhos contábeis de R$ 105 milhões com seu investimento nos papéis da antiga holding estatal de telecomunicações entre junho do ano passado e março de 2012.

A corretora do banco dominava a ponta de compra dos papéis da estatal, de baixíssima liquidez, nos dias que antecediam o fim dos trimestres – época de fechamento dos balanços.

Nos últimos cinco dias dos meses de setembro e dezembro de 2011 e do mês de março deste ano, a corretora do Cruzeiro do Sul foi responsável por executar, respectivamente, 76%, 94% e 86% das ordens de compras de ações ordinárias da Telebrás.

Nesses dias de fim de trimestre, o volume de negócios era maior, assim como a valorização das ações da estatal.

Com isso, o valor da participação acionária detida aumentava e melhorava os resultados apresentados nas demonstrações contábeis divulgadas trimestralmente, o que é obrigatório para empresas com ações em bolsa, caso do Cruzeiro do Sul.

Em entrevista concedida ao Valor no início de 2010, o ex-controlador do Cruzeiro do Sul, Luis Octavio Indio da Costa, contou que o banco começou a comprar ações da Telebrás em 1997 e 1998, quando fez um investimento de R$ 3 milhões, pagando o equivalente hoje a R$ 0,10 por ação. O investimento tinha como base a expectativa de liquidação da empresa pelo valor patrimonial, que era de R$ 1,40, mas que nunca ocorreu de fato.

Em meados do ano passado, reforçaram-se as apostas de que sairia o prometido aumento de capital na estatal, como parte da estratégia do governo de ressuscitar a Telebrás e incluí-la no plano nacional de banda larga. Desde o fim de junho de 2011, embora com giro diário de apenas R$ 88 mil, as ações da ex-blue chip do mercado acionário acumularam alta de 72% até o fim de março, quando atingiram o pico pós-privatização (antes de devolver os ganhos mais recentemente).

No fim de setembro de 2011, pouco antes do fato relevante publicado em 13 de outubro, que confirmou oficialmente o aporte de R$ 300 milhões do governo, os papéis subiram 20%. Mas nos últimos dias de dezembro as ações ON da Telebrás também acumularam forte alta, de 8,5%, o que se repetiu no fim de março, com um salto de pouco mais de 12% – sem que houvesse novas notícias relevantes sobre a companhia.

Até o dia 25 dos meses citados, a participação da corretora do Cruzeiro do Sul no total de compras de ações ON da Telebrás também foi relevante, mas bem menor, de 53%, 67% e 33%, respectivamente. E os papéis não mostraram nenhuma tendência de alta ou baixa. Até o dia 25 de cada um dos três meses, eles acumularam variação de -2,4%, -1,7% e +1,4%.

Os dados públicos relativos ao fundo Tamisa, veículo por meio do qual o banco detém sua participação na Telebrás, são mensais, o que não permite saber em que dia do mês as ações foram negociadas. Mas é possível calcular que, entre julho do ano passado e março deste ano, o Tamisa aplicou pouco mais de R$ 7 milhões na compras de novas ações ordinárias da estatal. A maior parte das compras, no valor de R$ 2,5 milhões, ocorreu em agosto, quando as ações deram a primeira forte guinada para cima. Em setembro, o volume chegou a R$ 1,4 milhão e nos meses seguintes ficou em torno de R$ 450 mil.

Ao mesmo tempo, a alta dos papéis nesse período teve um impacto mais de 10 vezes maior no estoque de ações que já estava no fundo de investimento. A variação positiva do saldo investido foi de R$ 105 milhões, saindo de R$ 131 milhões em junho de 2011 para R$ 236 milhões no encerramento do primeiro trimestre.

No fechamento dos trimestres, corretora do banco concentrava de 75% a 95% das compras dos papéis.

Esse ganho não entrou no caixa do banco, mas como o investimento era registrado pelo valor de mercado no balanço do Cruzeiro do Sul ao fim de cada trimestre – como determinam as regras contábeis para instrumentos financeiros com liquidez -, o impacto ocorreu diretamente no resultado líquido da instituição.

No período acumulado de julho a março, mesmo com o impacto positivo líquido de impostos de R$ 63 milhões das ações ON da Telebrás, o banco ficou no zero a zero em termos de lucro. O ganho que apurou entre junho e dezembro foi consumido pelo prejuízo do primeiro trimestre.

Sem o efeito positivo das ações da Telebrás, portanto, o banco teria acumulado prejuízo.

A corretora Cruzeiro do Sul pode intermediar negócios para quaisquer de seus clientes, e não apenas para o próprio banco ou para o fundo Tamisa. Também o fundo pode usar outras corretoras para negociar os papéis.

Mas chama atenção a queda expressiva nas cotações da Telebrás desde a intervenção no Cruzeiro do Sul, quando a corretora ligada ao banco e o fundo Tamisa deixaram de atuar na ponta compradora. Do fim de junho até a semana passada, a baixa das ações ON foi de 57%.

O Cruzeiro do Sul chegou a deter 10% das ações ordinárias da Telebrás em fevereiro de 2009, quando um aumento de capital promovido pela União para cobrir um passivo a descoberto diluiu sua posição para 4%. Quando começou a comprar os papéis ON, no fim da década de 1990, o banco também tinha adquirido ações preferenciais, que vendeu no início de 2008, embolsando R$ 16 milhões.

O banco voltou a se interessar pelas ações PN em agosto do ano passado, quando saíram as notícias sobre o plano de banda larga, momento em que se iniciou também uma forte trajetória de alta desses papéis, que acumularam valorização de 150% entre o início daquele mês e março deste ano.

Nesse caso, entretanto, como não havia um estoque relevante de papéis adquiridos previamente, o ganho do banco foi menor.

O Tamisa gastou R$ 77 milhões comprando 25% do capital preferencial da Telebrás entre agosto e março, quando a aplicação foi avaliada em R$ 80 milhões.

Mas desde a intervenção no Cruzeiro do Sul em junho, quando as compras do Tamisa cessaram, a cotação do papel PN acumulou queda de 38%.

Na série de ajustes feita pela Fundo Garantidor de Créditos (FGC) no balanço do Cruzeiro do Sul, uma baixa de R$ 125 milhões se refere à participação do banco nas ações da Telebrás, que no balanço de março era avaliada em R$ 316 milhões, sendo R$ 236 milhões em ações ON e R$ 80 milhões em papéis PN.

Questionado sobre o assunto, o banco não quis se pronunciar. O ex-controladores também foram procurados em diversos telefones, mas não retornaram.

Em resposta à pergunta sobre a existência de investigação sobre o caso, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) enviou nota por e-mail dizendo que “não comenta casos específicos”.

Valor Econômico de 23.8.2012.

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