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Credor do Cruzeiro terá deságio de 49%

Por Carolina Mandl

Para que o Banco Cruzeiro do Sul escape da quebra, os detentores de bônus emitidos no exterior e CDBs terão que aceitar perdas médias de quase 50% no valor de seus títulos. Ao mesmo tempo, um banco interessado em assumir o Cruzeiro terá que preencher algumas condições mínimas definidas e aceitar fazer um aporte de capital de R$ 700 milhões no banco. As duas coisas têm que acontecer simultaneamente, caso contrário, o Banco Central decretará a liquidação extrajudicial do banco que pertencia a Luis Felippe e Luis Octavio Indio da Costa.

O destino do Cruzeiro, hoje com patrimônio líquido negativo de R$ 2,236 bilhões segundo apontou a auditoria final na instituição, será conhecido em pouco menos de um mês, em 12 de setembro, data em que expira o prazo para adesão dos credores à proposta de deságio e também para que um comprador se qualifique e apresente proposta definitiva de compra.

As perdas impostas aos credores, segundo a proposta do FGC, totalizarão R$ 2,236 bilhões – exatamente o tamanho do rombo patrimonial -, e a maior parte do prejuízo ficará para os detentores de bônus (58%). O passivo total do banco é de R$ 5,68 bilhões. O FGC será o comprador desses papéis com deságio e os manterá em carteira até o vencimento, quando o eventual novo controlador do Cruzeiro fará o resgate também pelo valor descontado. Ou seja, na prática, o FGC vai financiar a redução do tamanho do patrimônio líquido negativo do banco, tornando-se o seu grande credor na largada.

Inicialmente, o valor que o FGC terá de desembolsar para comprar a dívida e evitar a liquidação do Cruzeiro vai superar a exposição que o fundo tem ao banco, que é de R$ 2,2 bilhões. Porém, como o FGC se tornará credor do Cruzeiro, caso um novo controlador honre as dívidas no vencimento, seu prejuízo pode se reduzir a apenas R$ 810 milhões, que equivale ao deságio aplicado aos detentores de Depósitos a Prazo com Garantia Especial, papéis cobertos pelo seguro do fundo. Essa conta será paga exclusivamente pelo FGC.

Para que a oferta de compra dos bônus seja bem sucedida, detentores de pelo menos 90% do valor da dívida terão que aderir à proposta. “Se [o investidor] pagar para ver, pode custar caro”, afirmou Celso Antunes, diretor do Fundo Garantidor de Créditos que assumiu temporariamente a administração do banco. Segundo o executivo, o percentual do deságio é equivalente ao preço de negociação dos bônus atualmente no mercado.

A oferta de compra dos bônus (tender offer), com efeito a partir de hoje, será coordenada pelos bancos HSBC e Bank of America Merrill Lynch. Os bônus de vencimento mais curto terão deságio menor, da ordem de 20%. O percentual de adesão mínimo para recompra dos CDBs também é de 90% do valor da dívida. Nesse caso, os investidores que têm CDBs de até R$ 70 mil não sofrerão deságio, já que esse é o valor coberto pelo seguro do próprio FGC.

De nada adiantará a adesão de 90%, entretanto, se não houver um comprador para o banco. Se a repactuação do passivo do banco for bem sucedida, o patrimônio líquido do Cruzeiro será zerado.

Por essa razão, o eventual comprador do Cruzeiro do Sul terá que se comprometer a fazer um aporte de capital da ordem de R$ 700 milhões imediatamente, para que o banco possa voltar a operar. O candidato terá que apresentar garantias desse aporte. Pelas regras definidas, os bancos interessados na compra precisam ter patrimônio líquido de pelo menos R$ 2,5 bilhões. Esse pré-requisito exclui a maior parte dos bancos em operação no país.

Na hipótese de um interessado na compra do banco se dispor a pagar um preço, além do aporte de R$ 700 milhões, o valor será abatido do deságio imposto aos credores, reduzindo suas perdas, inclusive as do FGC. Os interessados na instituição deverão enviar propostas fechadas ao fundo até 10 de setembro. Os números do Cruzeiro estarão disponíveis aos potenciais compradores a partir de hoje. O fundo já enviou e-mail para 20 bancos comunicando do processo. “Nosso sentimento é que haverá uma proposta [de compra do Cruzeiro]”, afirmou Antonio Carlos Bueno, diretor do FGC. Para evitar conflitos de interesse, a reunião do conselho do fundo que trataria da venda do Cruzeiro foi cancelada.

De acordo com Bueno, o comprador herdará um banco sem problemas após a liquidação do patrimônio negativo. “O Cruzeiro tem uma capacidade de geração de negócios bastante grande”, afirmou, em entrevista coletiva na sede do Cruzeiro, em São Paulo.

O cronograma até 12 de setembro parece apertado para levar a cabo duas operações tão complexas de forma simultânea.

A proposta do fundo para tentar salvar o Cruzeiro foi anunciada na noite de ontem, ao mesmo tempo em que foi publicado seu balanço de 4 de junho, a data da intervenção do Banco Central. A auditoria conduzida de lá para cá constatou que os créditos fictícios, que segundo os indícios de fraude encontrados até agora foram criados pelos antigos controladores, somaram R$ 1,388 bilhão, confirmando os números que já haviam sido apurados pela fiscalização do BC. Os ajustes totais no balanço, entretanto, foram superiores e totalizaram R$ 3,11 bilhões.

Segundo Antunes, o rombo do Cruzeiro foi além do R$ 1,388 bilhão por uma série de fatores. As provisões adicionais ampliaram a conta em R$ 542,9 milhões. Houve uma reversão de lucro de cessão de carteiras de crédito de R$ 137,7 milhões. Antunes afirmou que o Banco Prosper possui patrimônio negativo de R$ 100 milhões, em vez dos R$ 55 milhões positivos registrados pela instituição. Houve perda ainda com ações da Telebrás, que estavam superavaliadas em R$ 125,2 milhões, e com o fundo Verax IAA, que tinha precatórios superavaliados em R$ 39,3 milhões.

Ainda segundo o executivo do FGC, os passivos contingentes do banco somam R$ 612,9 milhões. Com relação ao crédito tributário de R$ 196 milhões, embora existente, só pode ser mantido se o banco registrar lucro para usá-lo, de acordo com Antunes.

Os ajustes incluíram ainda operações de compra de imóveis de ex-executivos do Cruzeiro que nunca foram transferidos para o banco e um curioso item: R$ 2,5 milhões em pedras preciosas que haviam sido avaliadas em 1999.

Valor Econômico de 15.8.2012.

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