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Construção pode se recuperar na bolsa, afirmam analistas

Por Ligia Tuon

A palavra de ordem para quem quer investir no setor de construção civil na bolsa em 2014 é seletividade. Após um ano de conservadorismo em relação aos lançamentos imobiliários e perdas de até 64% amargadas pelas ações no acumulado dos últimos 12 meses, analistas esperam que as construtoras deem um passo a frente neste ano rumo a uma recuperação. Embora as expectativas sejam mais positivas, o investidor que incluir o segmento em sua carteira deve filtrar bem suas escolhas.

Um ponto a ser considerado é o efeito calendário. Com o Carnaval marcado para março, a Copa do Mundo entre junho e julho e as eleições em outubro, os lançamentos devem ficar ainda mais reduzidos. Alguns analistas acreditam que essa será a fonte dos problemas para as construtoras neste ano. “O volume de lançamentos já está muito deprimido”, diz um analista. Assim, o calendário poderá ampliar a aversão ao risco do investidor, o que não terá grande impacto nos resultados operacionais das empresas, mas poderá ter influência sobre os papéis.

Cyrela e MRV são as preferidas do mercado. Com um nível mais baixo de alavancagem que as concorrentes e maior equilíbrio financeiro, a Cyrela recebeu recomendação de compra recentemente pelo Itaú BBA baseada na forte geração de caixa livre prevista para os próximos dois anos, o que poderá traduzir-se em bons dividendos para os acionistas, segundo a instituição. Além disso, a prévia operacional da construtora animou o mercado, com registro de R$ 2,69 bilhões em novos empreendimentos entre outubro e dezembro, com alta de 28,3% na comparação com o mesmo período de 2012. As vendas totais da empresa, cujas ações amargam queda de 16,16% nos últimos 12 meses, cresceram 32,5%, para R$ 2,27 bilhões.

A MRV, cuja ação acumula baixa de 16% em 12 meses, pode ser beneficiada pelo desempenho no programa Minha Casa Minha Vida, “principalmente se o nível de renda máximo para que os consumidores comprem os imóveis for aumentado”, afirma Daniela Martins, da corretora Concórdia, referindo-se a rumores de mercado. A expansão dos lançamentos da construtora de outubro a dezembro foi de 101%, para R$ 1,34 bilhão, um dos destaques do setor.

MRV e Cyrela também são as preferidas do Bank of America Merrill Lynch (BofA), que elevou a recomendação de ambas as ações de neutra para compra, para refletir a recuperação operacional das empresas. Apesar da virada das construtoras, os papéis caíram em 2013. “O mercado não ligou para a recuperação [no ano passado]”, diz relatório recente assinado pelos analistas Guilherme Vilazante e Daniel Gasparete.

A ação da Even também deverá ser negociada na bolsa com um prêmio em relação às concorrentes. A construtora tende a atrair a atenção do mercado por conta do seu ingresso no Ibovespa em janeiro e, por isso, tem chance de ser negociada em um novo patamar, na opinião de analistas. A companhia apresentou lançamentos de R$ 1,23 bilhão no quarto trimestre, com crescimento de 6% na comparação com o mesmo período de 2012.

A Eztec tem uma situação diferente. Há quem considere o prêmio da ação alto em comparação às outras construtoras e, por isso, com alguma possibilidade de baixa. Em linha com essa expectativa, o BB Investimentos reduziu a recomendação do papel de compra para neutra. “Consideramos que a empresa ainda pode ser beneficiada com bons resultados operacionais para o quarto trimestre de 2013, mas isso não justifica um valor alto para o ativo”, diz Wesley Bernabé. As ações da companhia apresentam alta de 5,4% nos últimos 12 meses.

Por outro lado, há incorporadoras que ainda devem ser vistas com uma certa cautela por parte do investidor. São as que apresentam mais dificuldade para voltar a gerar níveis saudáveis de caixa e a reduzir o endividamento.

Em 2007 e 2008, com o boom de lançamentos imobiliários, impulsionados pela forte capitalização das construtoras após entrarem na bolsa, muitas começaram fazer parcerias em várias regiões. Depois desse crescimento considerado desordenado, que trouxe para os balanços rombos bilionários, as empresas estão voltando ao eixo Rio-São Paulo, onde fica mais fácil controlar os empreendimentos.

As que ainda não conseguiram inverter essa situação devem ter mais um ano complicado. Um analista coloca nessa lista Rossi, PDG e Brookfield.

Essa última e a Tecnisa continuam a ser um ponto de atenção, sobretudo por conta da suspeita de envolvimento no esquema de propinas em São Paulo. “Se houver a exigência de pagamento por parte do governo, isso pode ter impacto no orçamento das companhias”, alerta Daniela Martins, da corretora Concórdia. Apesar disso, a Tecnisa, uma das únicas construtoras a apresentar alta nos últimos 12 meses, de 4%, lançou R$ 1,883 bilhão no ano passado, 86% acima de 2012. O Jardim das Perdizes, maior projeto da incorporadora, foi principal empreendimento lançado em 2013, responsável por dois terços do volume.

A Brookfield é a empresa que amarga maior perda dos últimos 12 meses no setor, de 64,3%. PDG e Rossi têm queda de 43% e 57%, respectivamente. “A volatilidade desses papéis vai continuar acentuada”, diz Bernabé, do BB Investimentos.

Em relação à Gafisa, o desconto nos papéis tende a diminuir, o que traria um potencial de alta para a ação, que sofre com uma queda de 32% em 12 meses. “Outras com situações mais críticas, como PDG, Rossi e Brookfield, vão demorar um pouco mais para provar ao mercado que vão se recuperar logo”, completa o analista.

Para o BofA, a virada de PDG, Rossi e Brookfield só deve chegar no segundo semestre. “E o mercado não quer pagar nada adiantado”, afirmam os analistas Vilazante e Gasparete, em relatório.

Fonte: Valor Econômico de 27.1.2014.

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