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Companhias acessam mercado externo para alongar dívidas

Por Talita Moreira

A Votorantim Cimentos lançou ontem uma oferta para captar cerca de € 500 milhões com uma oferta de bônus no mercado europeu, em operação que será fechada nesta quarta-feira. O objetivo da companhia é usar o dinheiro para recomprar papéis de vencimento mais curto e alongar o prazo de sua dívida.

Não se trata de um caso isolado. Empresas brasileiras têm aproveitado o momento relativamente bom do mercado externo para fazer captações e melhorar seu perfil de endividamento.

Boa parte das companhias não está em busca de recursos para investir, já que o período de baixo crescimento econômico levou muitas delas a deixar em banho-maria projetos para ampliar a capacidade de produção.

O que está por trás da nova rodada de emissões externas é a percepção de que o momento é oportuno para gerenciar passivos que vão vencer nos próximos anos. Como a tendência é de alta nos custos de captação, algumas empresas têm preferido se antecipar e lançar novos títulos agora, em condições favoráveis. Assim, garantem prazos mais longos para suas dívidas e usam os recursos para recomprar papéis antigos.

“O principal fator é a expectativa de alta de juros nos Estados Unidos. Por enquanto, ainda é possível emitir bônus com cupom baixo em relação ao que se espera para os próximos anos”, afirma Pedro Bianchi, diretor da área de renda fixa do Bank of America Merrill Lynch (BofA).

Depois de uma rápida escalada em 2013, as taxas dos títulos do Tesouro americano – referência para definir o cupom dos bônus – recuaram nos últimos meses. No entanto, trata-se apenas de uma trégua. A expectativa dos investidores é que os Treasuries de dez anos, hoje negociados com rendimento na casa dos 2,6% ao ano, subam para mais de 4% em 2015.

Diante dessa perspectiva, muitas companhias têm preferido acessar já o mercado, mesmo que não precisem de recursos, a pagar caro mais adiante, observa Gustavo Miwa, superintendente do Bradesco BBI. Além de alongar prazos, diz ele, as empresas podem aproveitar as novas emissões para melhorar cláusulas de operações anteriores. “Enquanto os Treasuries estiverem no patamar atual, vamos ver mais operações de oportunidade.”

Conforme levantamento do Bradesco BBI, há apenas US$ 3,6 bilhões em bônus de companhias brasileiras que expiram em 2014. O volume, entretanto, vai crescer a partir do ano que vem, refletindo os prazos da grande quantidade de emissões externas feitas pelas empresas de 2010 em diante. Os vencimentos somam US$ 11,5 bilhões em 2015 e US$ 21 bilhões no ano seguinte, sem considerar papéis com cláusulas de resgate.

“Algumas companhias já levantaram o dinheiro de que precisam para os próximos anos, mas ainda veem condições favoráveis para estender os vencimentos”, afirma o diretor-executivo de dívida no mercado de capitais do J.P. Morgan na América Latina, Roberto D’Avola. Segundo ele, a mesma tendência se nota em outros países latino-americanos, embora seja mais forte no Brasil.

Numa tentativa de se antecipar à alta dos juros, diversas operações envolvendo troca e recompra de bônus foram anunciadas recentemente por empresas brasileiras. Na semana passada, a Gerdau emitiu US$ 500 milhões em bônus de 30 anos. Parte desse montante será usada para recomprar títulos de 2017 e 2020. A siderúrgica também vai emitir papéis de dez anos e usá-los para trocar títulos antigos.

Em busca do grau de investimento, o frigorífico Minerva, que no fim de março captou US$ 300 milhões com a emissão de bônus perpétuos, vai usar metade desse valor para devolver ao caixa recursos que gastou para recomprar bônus de 2023. Outros US$ 100 milhões serão destinados a refinanciar passivos de curto prazo, disse, na ocasião, o diretor financeiro da companhia, Edson Ticle.

Os frigoríficos Marfrig e JBS, a petroquímica Braskem são outros exemplos de empresas que foram ao mercado externo desde a segunda metade do ano passado com o objetivo de melhorar o perfil do endividamento.

Na oferta de bônus lançada ontem à tarde, a Votorantim Cimentos pretende usar os recursos para recomprar títulos de uma emissão de € 750 milhões com vencimento em 2017. Os novos títulos terão prazo de sete anos.

A operação faz parte de um esforço do grupo para reduzir e reorganizar suas dívidas. A Votorantim Industrial recomprou, em março, US$ 880 milhões em bônus de emissões que vencem em 2019 e 2021. Nesse caso, a companhia optou por não lançar novos títulos no exterior. Para adquirir os papéis antigos, usou US$ 400 milhões do caixa e recursos obtidos a partir de captações em reais.

“[A recompra] está em linha com a estratégia da companhia de melhoria do perfil de endividamento e diminuição da dívida bruta, além de reduzir a exposição de seus resultados frente ao dólar norte-americano”, afirma a Votorantim Industrial por meio de uma nota

Fonte: Valor Econômico do dia 16.04.2014

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