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Cenário difícil exigiu criatividade em operações

O mercado desafiador de 2013 exigiu boa dose de criatividade dos estruturadores das ofertas de ações. Para levar as empresas à bolsa, os bancos de investimentos precisaram intensificar o trabalho prévio junto aos investidores e, em alguns casos, tiveram de inovar no desenho das operações.

Algumas ofertas foram para a rua ancoradas por investidores – estratégicos ou não – que se comprometeram a ficar com boa parte das ações. A primeira com esse modelo, em abril, foi a da empresa de milhagens Smiles, que atraiu o fundo de private equity General Atlantic. Além de garantir recursos, a entrada do fundo foi a solução encontrada para dirimir preocupações com eventuais conflitos de governança da empresa, controlada pela Gol.

Quando a Smiles anunciou a oferta, a concorrente Multiplus, já listada, também chegou a iniciar procedimentos para fazer a sua. A operação foi enxergada por muitos como útil apenas para capitalizar a TAM, além de evidenciar questões de governança dessas companhias. Não houve demanda e a operação acabou sendo retirada do mercado.

O mês de abril também trouxe a oferta inicial da sucroalcooleira Biosev, cujas ações foram lançadas com opção de venda em 12 meses a um valor pré-determinado. A operação também contou com garantia firme de colocação do BTG Pactual. Com esse mecanismo, o banco se compromete a adquirir um percentual das ações se não houver demanda suficiente dos investidores.

O BTG repetiu a dose na oferta da CPFL Renováveis e também na operação da MPX (atual Eneva), empresa de energia que era controlada por Eike Batista. Mas, nesse caso, a oferta pública acabou sendo substituída por um aumento de capital privado.

A garantia firme de colocação causou incômodo nos bancos concorrentes, pois esse recurso elimina o processo convencional de formação de preços das ofertas. Foi considerada por muitos um retrocesso, já que era usada na década de 90.

Outra operação inovadora anunciada neste ano foi a da papeleira Klabin, estruturada pelo Credit Suisse. Com dificuldades para realizar uma captação bilionária, que causaria diluição em sua base de ações, a oferta será praticamente uma compra de ações a termo. Inicialmente, será feita uma emissão de R$ 1,7 bilhão, com colocação praticamente garantida por um consórcio de investidores. Dessa forma, a diluição para os acionistas foi postergada. Os títulos de dívida serão convertidos em ações em janeiro de 2019, se for cumprido o cronograma de um plano de investimentos da companhia.

A temporada de 2013 também teve duas “reestreias”. As operações de Via Varejo e da fundição Tupy foram tratadas pelos investidores como ofertas iniciais, ou “re-IPOs” no jargão do setor. Embora se trate de duas companhias já listadas, ambas eram pouco negociadas. Por isso, o processo de formação de preços foi praticamente o mesmo de empresas novatas.

O ressurgimento de companhias na bolsa é considerado positivo para o mercado, já que pode abrir para os investidores opções que estavam esquecidas. Na virada do ano, a Fras-le também prepara a sua operação, segundo fontes a par do assunto. Tanto ela quanto a Tupy, com forte exposição a exportações, se beneficiam do câmbio menos valorizado.

Por fim, o ano também revelou uma maior atenção da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) às distribuições de ações.

A oferta da BB Seguridade chegou a ser suspensa porque o Banco do Brasil, controlador da empresa e líder da operação, distribuiu mensagem eletrônica com material publicitário sobre a oferta sem a aprovação prévia da CVM. Em agosto, o banco entrou em acordo com a autarquia e pagou R$ 400 mil para extinguir um processo.

A CVM também suspendeu a oferta inicial da Anima Educação e postergou o início da negociação dos papéis por entender que declarações do presidente do conselho de administração da empresa, Ozires Silva, infringiram o período de silêncio.

Anima e Ser foram duas empresas de educação que chegaram à bolsa ao mesmo tempo, em outubro, disputando os investidores. No meio das ofertas, analistas do Itaú BBA divulgaram relatório alertando sobre uma instrução da Receita Federal que alteraria a isenção fiscal do setor. Ambas tiveram de revisar os prospectos de suas operações. Como as reservas para as ações da Ser já haviam sido encerradas, a estreia da companhia teve de ser adiada, o que levou a Anima a chegar à bolsa antes. A oferta da Ser foi liderada pelo BTG e a da Anima, pelo Itaú BBA.

Jean Marcel Arakawa, sócio da área de mercado de capitais do escritório de advocacia Mattos Filho, avalia que a CVM tem sido rigorosa em relação às informações divulgadas durante as ofertas, em particular com aquelas que têm forte apelo para o investidor de varejo. “A CVM avalia que essas punições [como a imposta ao BB] são educativas”, diz.

Para o advogado, no entanto, a penalização no caso da Anima já deveria ter sido a aplicável a uma companhia aberta e não à oferta, afirma Arakawa. “Naquele momento, os investidores já haviam tomado suas decisões.”

Fonte: Valor Econômico de 27.12.2013.

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