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Cenário deve reduzir ingresso em carteira

Depois de uma entrada líquida de US$ 34,742 bilhões em investimentos em portfólio em 2013, o maior nível desde 2010, quando foi registrado o recorde da série histórica, os analistas preveem um volume menor de ingressos estrangeiros para portfólio neste ano, diante do cenário externo de menor liquidez global e perspectiva de crescimento econômico ainda fraco para o Brasil.

Em 2013, o investimento estrangeiro em carteira ajudou a cobrir um déficit em conta corrente de US$ 81,374 bilhões, cerca de 3,66% do PIB, bem acima do total registrado em Investimento Estrangeiro Direto (IED), que ficou em US$ 64,045 bilhões. Para 2014, o Banco Central projeta um déficit em conta corrente de US$ 78 bilhões, maior que o estimado para o ingresso de IED, de US$ 63 bilhões. Os analistas preveem, no entanto, uma entrada menor para investimento estrangeiro em carteira que a verificada em 2013, o que deve levar o país a fechar o segundo ano consecutivo com déficit no balanço de pagamentos, que encerrou em US$ 5,926 bilhões em 2013. “Acho que o número para investimento estrangeiro em portfólio deve ficar mais próximo da média verificada entre 2011 e 2012, em torno de US$ 15 bilhões”, afirma Gabriela Fernandes, economista do Itaú Unibanco.

O banco prevê ingresso líquido de US$ 50 bilhões em IED, que seria insuficiente para cobrir o déficit em conta corrente projetado para este ano, de US$ 76 bilhões. “Não vejo grande problema em um balanço de pagamentos negativo. O Brasil tem grande estoque de reservas internacionais (US$ 375,5 bilhões)”, destaca Gabriela.

O economista-chefe da Votorantim Asset Management, Fernando Fix, também prevê que o fluxo para investimento em portfólio deve ser bem mais modesto que o verificado em 2013. O economista prevê um volume de US$ 55 bilhões em IED neste ano, contra um déficit de US$ 75 bilhões em conta corrente. “O Brasil precisa mostrar maior atratividade para investimento produtivo e não ficar muito dependente de investimentos mais voláteis”, afirma Fix.

Os investimentos estrangeiros em carteira no ano passado foram impulsionados pelas entradas para renda fixa, que somaram US$ 23,107 bilhões, o maior volume desde 2010. O ingresso de recursos ganhou fôlego após a retirada do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 6% para aplicações de estrangeiros em renda fixa, em junho do ano passado. “Logo após a retirada do imposto houve grande entrada de recursos, mas ela se normalizou. Acho que um número perto de US$ 10 bilhões seja mais razoável para este ano”, diz Fix.

Com a taxa Selic em 10,5%, a terceira maior do mundo, e a perspectiva de continuidade do ciclo de aperto monetário, os investidores estrangeiros avaliam que as aplicações em renda fixa no Brasil continuam atrativas, mas o cenário de menor liquidez global e os problemas internos – como deterioração do resultado fiscal e inflação alta – ainda limitam o fluxo de recursos para o país.

O gestor de fundos de dívida de mercados emergentes da MFS Investment Management, Ward Brown, avalia que o aumento da taxa básica de juros está na direção certa, mas vê necessidade de aperto maior para estabilizar a inflação. Para ele, a menor liquidez global e a perspectiva de fraco crescimento para o Brasil são os principais fatores que limitam o fluxo de capital para o país. A gestora reduziu no ano passado a participação em bônus brasileiros em dólar no seu portfólio de 1,5% para 1,1% e aumentou a alocação em papéis denominados em moeda local de 7,6% para 9,7%. “Vemos os bônus brasileiros denominados em moeda local ainda atrativos, mas em dólar preferimos papéis de outros países, como da Europa Central.”

Depois de acumular uma perda com a aplicação em títulos soberanos brasileiros, o fundo Total Return, da Pimco, reduziu sua posição em ativos brasileiros de 4,18% no terceiro trimestre de 2013 para 3,27% em dezembro. Em recente relatório sobre o Brasil, o gestor de portfólio para mercados emergentes, Michael Gomez, destaca que o mix de políticas econômicas empregado pelo governo brasileiro deteriorou a confiança dos investidores, enfraqueceu a moeda e elevou o prêmio de risco dos ativos brasileiros. No entanto, afirma, o país poderia restaurar a “ordem e progresso” com a combinação de políticas corretas. “O Brasil precisa ancorar a política econômica em torno de uma meta de superávit primário rigorosa e confiável”, diz.

A perspectiva de restrição da liquidez global e de crescimento menor dos países emergentes frente à recuperação das economias desenvolvidas tem promovido uma realocação de portfólio.

Nesse cenário, países com fundamentos econômicos mais fracos, com maior déficit em conta corrente, como Brasil, Turquia e África do Sul, são os mais afetados. “Países atrelados a commodities, como Brasil, África do Sul e Rússia, se beneficiaram do quadro de alta liquidez, mas agora estão passando por um momento difícil”, diz Jean Van de Walle, gestor de fundos de ações para mercados emergentes da AllianceBernstein.

Apesar dos preços atrativos das ações brasileiras, o investidor ainda está reticente em ampliar a alocação no Brasil depois do fraco desempenho da Bovespa no ano passado, que caiu 15,5%, perdendo só da bolsa do Peru. “Os preços extremamente altos de 2010 foram um exagero, e agora a bolsa brasileira voltou a ter níveis razoáveis de preços em alguns ativos do ponto de vista dos fundamentos, mas ainda não é suficiente para ficarmos como uma posição ‘overweight’ (acima da média do mercado) em Brasil”, afirma Walle, que ainda mantém posição neutra em Brasil em relação ao benchmark. Para o gestor, o risco de rebaixamento em um grau do rating soberano brasileiro já está refletido nos preços.

O gestor prevê que o ciclo negativo para emergentes tende a durar até 2015, quando a normalização da política monetária americana deve estar mais definida. “Não devemos ter um ano tão ruim quanto 2013, mas a alta dos juros nos EUA ainda deve continuar desfavorável a esses mercados.”

Para o gestor da Aberdeen Asset Management, Edwin Gutierrez, boa parte da redução de estímulos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) já está refletida nos preços dos bônus brasileiros. “Aumentamos a nossa posição em bônus soberanos brasileiros no ano passado com a visão de que os preços já refletiam em grande parte o sentimento negativo em relação à economia brasileira.”

Para o gestor, os bônus brasileiros ainda oferecem bons retornos comparados com outros mercados emergentes. “A história do Brasil pode não estar melhor, mas acreditamos que estamos sendo compensados pelos riscos”, diz.

Fonte: Valor Econômico de 27.1.2014.

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