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Bom humor de volta?

Depois da tempestade, a bonança. A frustração do investidor com os mercados brasileiros neste primeiro bimestre foi deixada de lado no mês de março e abriu espaço para a esperança ressurgir com maior força. A principal beneficiada pela menor aversão a risco foi a bolsa, que consolidou sua primeira alta após quatro meses consecutivos no campo negativo. O Ibovespa subiu 7,05% e fechou o período aos 50.415 pontos – maior alta mensal desde janeiro de 2012 e nível mais alto desde o dia 8 de janeiro deste ano (50.577). Com isso, o índice reduziu as perdas de 2014 para 2,12%.

Das 73 ações que o compõem, 60 subiram, com destaque para papéis de empresas estatais, como as elétricas Cesp PNB (18,44%), Copel PNB (18,06%) e Eletrobras PNB (19,69%) e ON (32%), além de Petrobras PN (16,11%).

Da mesma forma, o dólar marcou sua segunda queda seguida, ao recuar 3,24% no mês passado – baixa não vista desde setembro (-7,09%) -, para R$ 2,269, nível mais baixo desde 4 de novembro. No ano, a moeda americana acumula queda de 3,73%.

Além do ingresso de recursos estrangeiros no mercado doméstico, o mês de março foi marcado pelas discussões acerca da eleição presidencial, que entrou de vez no radar dos investidores. Se de um lado a concretização do rebaixamento da nota de crédito brasileira não fez nenhum barulho nas mesas de operação, a pesquisa CNI/Ibope mostrando queda na avaliação positiva do governo de Dilma Rousseff foi recebida com ênfase pelo mercado financeiro.

Gestores indicam que é hora de o investidor olhar com maior atenção para a bolsa e alguns defendem inclusive um posicionamento mais arrojado, ainda que o recado de cautela persista. Não há garantias de que o bom humor voltou de vez ao Brasil.

Na avaliação do sócio e gestor da Cultinvest Asset Management, Walter Mendes, daqui para frente, o movimento do mercado vai estar atrelado à parte eleitoral, um fator novo a ser acompanhado mais de perto.

“As eleições entraram no mercado. A grande maioria dos investidores locais não estava nem olhando a bolsa, estavam sem esperança”, diz. “Os fundamentos não estão tendo nenhuma melhora significativa, o que daria suporte para uma alta maior, mas ficou claro que o mercado estava ‘sobrevendido’ e que a questão eleitoral é muito importante.”

Mendes assinala que o maior impulso para a retomada da bolsa em março foi dado pelos investidores internacionais, que mostraram que o Brasil não é uma carta fora do baralho.

Em março, até o dia 27, o saldo líquido de atuação do estrangeiro na Bovespa estava positivo em R$ 2,2 bilhões e, no ano, as compras superavam as vendas em cerca de R$ 2,6 bilhões.

Segundo o gestor da Cultinvest, o mercado brasileiro estava muito descontado em relação a outros emergentes, o que estimulou a redução das posições “vendidas” (aposta na queda) dos estrangeiros. “Alguns outros mercados que concorrem com o Brasil ficaram caros, como o México, e a Rússia ficou arriscada”, diz Mendes, para quem houve um ajuste de carteiras no mês, um movimento mais técnico que pode ter sido desencadeado pelo retorno de capital mais especulativo, voltado apenas para o curto prazo (conhecido como “hot money”).

O diretor de fundos de fundos da HSBC Global Asset Management, Adilson Ferrarezi, também vê o movimento dos mercados em março como tático, com uma melhora provocada principalmente pela entrada de dinheiro estrangeiro. A continuidade do afrouxamento monetário nos EUA e a realocação de recursos entre países emergentes, com saída da Rússia para o Brasil, estimularam a alta da bolsa e a queda do dólar, assinala.

Ferrarezi, contudo, vê o fluxo como momentâneo e também chama atenção para as incertezas no mercado brasileiro pautadas pelas eleições. “Daqui para frente teremos que observar com cautela principalmente os sinais do que pode acontecer com os estímulos americanos e, do lado doméstico, a questão política”, comenta.

A superintendente de investimentos da Votorantim Asset Management, Sandra Petrovsky, destaca que a volatilidade esperada dos mercados se confirmou neste primeiro trimestre, o que exige da casa uma disciplina de investimento bastante focada, com pontos de entrada e de saída.

“Apesar de termos tido um mês de março um pouco mais favorável para o Brasil, com movimento de queda do dólar, bolsa com performance melhor e juros voláteis, o cenário como um todo ainda não mudou. Ainda é um mercado volátil e vai continuar sendo”, aponta Sandra.

Mas isso não quer dizer que as oportunidades não possam ser mais bem aproveitadas. Para o investidor com perfil de longo prazo, a superintendente indica que já é possível fazer alguma aposta em bolsa, via fundo de investimento, com a visão de que o Ibovespa em torno dos 50 mil pontos é um patamar estratégico.

Para os mais arrojados, Sandra recomenda a aplicação em fundos multimercados, nos quais delega para o gestor a estratégia de “trading”. E para os que não querem suportar muita volatilidade, com um perfil mais conservador, a indicação recai sobre fundos de crédito privado. “Enxergamos um prêmio adicional por conta dos títulos corporativos e, nesse mercado, não há tanta volatilidade como no mercado de juros propriamente dito”, diz.

O economista-chefe da distribuidora de fundos pela internet Órama, Alvaro Bandeira, permanece mais otimista e considera os dois primeiros meses do ano como ponto fora da curva para a bolsa. Também atento à entrada de recursos estrangeiros, Bandeira espera uma recuperação do mercado no ano, mas mostra preocupação com a velocidade da melhora, diante da alta de cerca de 12% desde o dia 14 de março. “Meu medo é o curto prazo. Vamos devagar com o andor que o santo é de barro. Ainda não existe nenhum céu de brigadeiro para a bolsa disparar”, aponta o economista.

Ainda que também considere não ter havido mudanças no plano macroeconômico, o economista avalia que o pior já passou nos mercados. E o investidor precisa estar atento às oportunidades. “Está na hora de se arriscar para ganhar um pouco mais no futuro. Os preços ainda estão achatados, mas é preciso escolher bem os ativos”, afirma Bandeira, ressaltando que o foco deve estar num horizonte de médio prazo.

Na renda fixa, em um mês em que o CDI, referencial do mercado, teve variação de 0,76%, a volatilidade seguiu presente. Títulos prefixados (LTNs) e indexados à inflação com vencimento no curto prazo mostraram uma redução dos prêmios, enquanto as taxas das NTN-Bs com vencimentos a partir de 2019 aumentaram, provocando uma desvalorização dos papéis.

O estrategista de renda fixa da Coinvalores, Paulo Nepomuceno, diz que os prêmios embutidos na curva prefixada estavam exagerados, porque o mercado apresentava diversas incertezas. Em sua avaliação, essas dúvidas continuam, mas um alívio no mercado cambial reduziu a pressão sobre os juros no Brasil.

“Desde a reunião de Davos as moedas têm trazido maior tranquilidade, independentemente do nível dos Treasuries de dez anos”, aponta. A indicação de preocupação com os emergentes dada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), diz Nepomuceno, mostrou que o fluxo de recursos continuaria, o que beneficiou o câmbio e, consequentemente, afetou o mercado de juros.

“A melhora esteve mais vinculada ao movimento de fora que de dentro. O prêmio continua alto e ainda deve continuar por um bom tempo. O fundamento não mudou”, frisa Nepomuceno.

O estrategista considera que, para o curtíssimo prazo (até um ano), o investidor deve buscar aplicações como Certificados de Depósito Bancário (CDBs). Mas se o horizonte de tempo for maior, Nepomuceno diz ser mais interessante aplicar em títulos indexados como as NTN-Bs, que mostram prêmios “interessantes” a partir de 2024. A NTN-B Principal com esse prazo pagava ontem taxa de 6,54% (mais correção pela inflação) no Tesouro Direto, programa de venda de títulos públicos a pessoas físicas pela internet.

“O prêmio já foi melhor, mas continua interessante, se o investidor pensar em carregar até o vencimento. Taxas acima de 6% para o médio ou o longo prazo adicionadas da inflação são muito boas”, opina o estrategista.

O gestor de renda fixa da Valora Investimentos, Diego Coelho, diz que espera um cenário de volatilidade daqui para frente, por conta de eventos como as eleições. “Por ser um ano de eleição, o tema político se sobressai ao técnico”, comenta.

Nesta quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne para decidir o novo rumo da taxa básica de juros. Conforme o Boletim Focus divulgado ontem, a mediana das estimativas para a Selic ao fim de 2014 permaneceu em 11,25%, o que embute um aumento adicional de 0,50 ponto percentual sobre o patamar atual.

Fonte: Valor Econômico de 1.4.2014.

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