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Bancos aceleram captação local

Por Carolina Mandl e Fabiana Lopes

Mesmo sem apostar muito no crédito neste ano, os bancos estão com o pé no acelerador para captar recursos no país. O estoque dos principais papéis de renda fixa emitidos pelas instituições fechou março em R$ 1,16 trilhão, expansão de 18,5% em 12 meses. O levantamento feito pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) considera Certificados de Depósito Bancário (CDBs), letras financeiras, Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGE) e Letras de Crédito Imobiliário (LCI). São papéis que respondem por cerca de 90% do estoque de títulos bancários.

Pelas projeções do Banco Central, o estoque de empréstimos no país avançará 13% neste ano. Mais do que uma aposta no avanço do crédito, portanto, o esforço de captação dos bancos é explicado por outros motivos que afetam a indústria no momento, segundo executivos do setor ouvidos pelo Valor. A preocupação com a liquidez, por exemplo, tem incentivado os bancos a vender papéis. Por enxergarem que 2014 pode ser mais turbulento e com calendário apertado por conta de eleições e da Copa do Mundo, as instituições têm optado por formar um colchão de liquidez.

“Os bancos estão montando uma posição de maior liquidez. Sabem que o dinheiro mais caro é aquele que você precisa, então preferem montar uma reserva agora”, diz Antonio Oliveira, diretor de mercado de capitais do HSBC. Esse é especialmente o caso de bancos de menor porte, que são os mais afetados em períodos mais turbulentos. Segundo Norberto Zaiet, vice-presidente de finanças do banco Pine, há um movimento de expansão contínua das captações. “Temos mantido uma liquidez importante no balanço. A gente se sente confortável em manter 30% de depósitos em caixa, mas temos deixado ao redor de 40% a 45%.”

Além do reforço na captação, há mudanças no portfólio dos produtos ofertados. As instituições estão privilegiando as vendas locais de papéis em detrimento das externas, por questões de custos mais baixos domesticamente.

Os números dos recursos captados no exterior não mostraram recuo no primeiro trimestre, mantendo o patamar de US$ 3,8 bilhões de igual período de 2013. Executivos relatam, porém, que alguns bancos chegaram a cogitar emitir títulos no exterior, mas, contas feitas, resolveram manter suas emissões no mercado local. “Muita gente demorou para captar e viu o custo subir”, diz Oliveira.

Em relato ao Valor, o vice-presidente de um grande banco privado afirmou que houve uma redistribuição dos tipos de captação, sem que tenha havido uma expansão muito descolada do crédito na soma de todas as linhas de funding da instituição.

Do lado da clientela, a demanda por papéis de banco tem contribuído tanto para o reforço da liquidez, quanto para a troca de captações externas por locais. “Tem havido demanda agressiva por parte dos poupadores por títulos de bancos, principalmente os isentos de impostos”, diz Daniel Lemos, diretor de renda fixa da XP. Letras de crédito imobiliário e do agronegócio não são tributadas com imposto de renda.

O diretor de RI do Banco ABC Brasil, Alexandre Sinzato, diz que a instituição sente uma maior oferta de recursos por parte de investidores, que podem estar atentos à perspectiva de desaceleração da economia e esperam colher ganhos à frente. “Vemos uma oferta de recursos numa taxa mais forte e é isso que tem feito com que a nossa liquidez fique mais elevada.”

Entre os investidores institucionais, a falta de oferta de debêntures nos primeiros meses do ano aumentou a procura por títulos bancários. Os papéis cujos estoques mais crescem são letras financeiras e LCIs. Em março, o saldo de letras financeiras alcançou R$ 371,2 bilhões, e o CDB, R$ 647,7 bilhões.

Fábio Zenaro, gerente-executivo da Cetip, diz que há um movimento de migração dos fundos de investimento e de pensão de CDBs para letras financeiras. A troca é interessante para os bancos, pois as letras têm vencimento mínimo de dois anos, não sofre recolhimento compulsório e não conta com o seguro do Fundo Garantidor de Créditos. Esses fatores levam os bancos a oferecer taxas mais atrativas.

Fonte: Valor Econômico de 22.4.2014.

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