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ATG desenvolve nova plataforma de negociação no Brasil

Enquanto algumas bolsas internacionais manifestavam o desejo de se instalar no Brasil, a Americas Trading System (ATG) trabalhava praticamente em silêncio. Há cinco meses, a ATG fechou um acordo com a Nyse Technologies, braço de tecnologia da Nyse Euronext, para desenvolver centrais de liquidez na América Latina, cujo mercado mais pujante, como se sabe, é o brasileiro. A companhia, que é brasileira, aguarda agora autorização do Banco Central (BC) para lançar no país uma distribuidora de valores, que terá o nome Arena.

A ATG é uma plataforma de negociação que oferece a seus clientes a possibilidade de executar ordens de compra e venda de uma forma que a companhia julga ser mais eficiente, ou seja, servindo de intermediário para as duas pontas, mas apenas registrando a negociação em uma bolsa de valores.

Com um passo de cada vez e o apoio de peso da Nyse, a ATG se estrutura para competir no mercado brasileiro, mas por enquanto vendendo um serviço que ainda não pode ser perfeitamente implantado no Brasil – pelo menos enquanto a BM&FBovespa tiver o monopólio.

A ATG já oferece o serviço para seus clientes nos Estados Unidos, onde o mercado é aberto e esse tipo de plataforma é bastante comum. Lá, há a possibilidade de, por meio de sua rede de contatos, encontrar um comprador ou vendedor de ações, com o posterior registro em bolsa.

Como esse tipo de plataforma atende várias corretoras e cria liquidez a partir de seus próprios clientes, praticamente apenas comunicando o negócio às bolsas, as plataformas ficam com a maior parte da receita gerada com as operações, sendo que uma fração menor vai para a bolsa.

Como no Brasil todo negócio precisa ser fechado no ambiente da bolsa, mesmo que a ATG juntasse as pontas por aqui, toda a receita das taxas dos negócios ficaria com a BM&FBovespa.

Mesmo com as atuais limitações impostas pelas regras brasileiras, Arthur Machado, diretor de operações e vice-presidente ATG, esclarece que a empresa não pretende se consolidar como uma nova bolsa. “Não está nos nossos planos listar empresas ou mesmo constituir depositária ou clearing próprias”, afirma.

“Obviamente, quando e se vier a ser possível utilizar a clearing e a custódia da BM&FBovespa, vamos oferecer nossos serviços plenamente [também no Brasil].”

“A liquidez não acontece nas bolsas, mas por meio da nossa rede de clientes. Por essa razão, nosso modelo de negócios prevê que a ATG fique com a maior parte das receitas”, explica Machado.

A empresa foi fundada por antigos sócios da Ágora Corretora. Tem sede no Rio e escritórios em Miami, México, São Paulo e Santiago, de onde são controladas operações na Argentina, Colômbia e Peru.

Uma fonte que prefere não se identificar afirma que a parceria com a ATG representa o primeiro passo para a entrada da NYSE no Brasil. “Toda bolsa precisa de um serviço de execução de ordens e um modelo de negociação. Uma vez que a CVM autorize a existência de outras bolsas por aqui, a ATG, usando a sua tecnologia já existente, pode entrar em operação imediatamente”, afirma.

O Valor apurou que, até o momento, os investimentos por parte dos sócios brasileiros e da NYSE na ATG somam US$ 75 milhões.

No momento, o que a ATG oferece aos clientes internacionais no Brasil é um auxílio operacional para investir aqui. Não é permitido no país juntar as partes para fechar um negócio fora do ambiente de bolsa. O que existe é o acesso direto ao pregão (DMA, na sigla em inglês), que, apesar de dispensar um corretor para executar a ordem, mantém a necessidade de usar uma corretora para ter um cadastro, onde haverá a análise de crédito. A ATG auxilia nesse processo burocrático.

Machado calcula que os estrangeiros que a ATG já assessora respondam por cerca de 3,5% do volume negociado na bolsa brasileira.

Com o lançamento da Arena, pretende unir em um site várias corretoras nacionais. Elas ficarão numa vitrine e poderão mostrar seus serviços, produtos, relatórios de análise e diferenciais de atendimento e preços, para os diversos investidores atendidos pela ATG, que escolherão com quem desejarão operar.

O modelo de oferecer eficiência na execução de ordens segue uma tendência ocorrida no exterior após a desmutualização das bolsas. A tendência do uso da eletrônica nos mercados instalou ainda uma briga por milissegundos na execução de ordens. As corretoras tiveram de mudar seus modelos: focar em serviços e atendimento e em análise de crédito, além de realizar pesados investimentos em tecnologia para garantir a rapidez de negociação.

Muitas preferiram, em vez de fazer os investimentos, usar serviços de terceiros e foi aí que ascenderam as plataformas de negociação, cujo modelo a ATG quer trazer para cá.

Nos Estados Unidos, a SEC, a CVM americana, acompanha de perto o trabalho dessas plataformas, para se certificar de que os negócios foram fechados de fato de forma mais eficiente e sem beneficiar um cliente em detrimento de outro.

O diferencial oferecido pela ATG para o investidor internacional operar no Brasil passa pela alta frequência (“high-frequency trading”). Essa modalidade faz funcionar os algorítimos, modelos matemáticos que se dividem em dois tipos. Um deles é o de decisão – que acompanha, por exemplo, possibilidades de arbitragem entre diversos produtos e mercados. Quando uma oportunidade é identificada, entra em cena o algorítimo de execução, que é o que vai definir como fechar a ordem para se beneficiar da arbitragem identificada. A ATG já desenvolveu algorítimos que conseguem ler o histórico do mercado brasileiro e tem oferecido esse material aos estrangeiros.

 

Valor Econômico de 3.9.2012.

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