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Apesar das concessões, pedidos de crédito para infraestrutura recuam no BNDES

As recentes concessões em infraestrutura, nas quais o governo tem depositado as esperanças para alavancar os investimentos e destravar o sistema logístico no país, ainda não são visíveis nos pedidos de financiamento feitos ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Segundo dados do banco, os pedidos de financiamento para projetos de infraestrutura somaram R$ 64,3 bilhões de janeiro a outubro, recuo de 16,8% em relação à quantia solicitada em igual período de 2012, de R$ 77,2 bilhões. O número de consultas também caiu, 3%, na mesma base de comparação.

Entre os setores que tiveram retração mais expressiva em valores estão outros transportes (-60,4%); energia elétrica (-36,5%); transporte ferroviário (-26,3%) e telecomunicações (-21,9%). Em número de operações, os principais recuos ocorreram em construção (-37,6%); outros transportes (-11,4%); serviços de utilidade pública (-5,9%) e atividades auxiliares de transportes (-5,6%).

Para o economista da LCA Consultores, Fernando Camargo, as consultas encerradas em outubro ainda refletem pedidos de financiamento de concessões anteriores – e não incluem, portanto, as novas rodadas de licitações de rodovias e aeroportos, iniciadas em setembro.

O superintendente de infraestrutura do BNDES, Nelson Siffert, confirma. “As consultas desses últimos leilões ainda não chegaram ao banco. Muitos deles ainda nem assinaram os contratos de concessão. Alguns deles já fizeram contato com o banco, mas não formalizaram consultas. Elas devem chegar no primeiro trimestre do próximo ano”, disse.

No setor de energia elétrica, o raciocínio é similar. Em 2012 só houve um leilão de geração, o A-5 (energia que será comercializada em cinco anos). Entre as usinas leiloadas este ano, poucas pediram financiamento até agora. Camargo lembrou que saíram das estatísticas grandes projetos hidrelétricos, como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio, o que contribuiu para a redução nas consultas.

Claudio Frischtak, especialista em infraestrutura, aponta a instabilidade regulatória do setor elétrico como outra responsável pelo recuo nos pedidos de financiamento. “As incertezas geradas a partir da medida provisória [MP 579, agora Lei 12.783], que determinou as regras para renovação das concessões, fez o setor privado cobrar um prêmio, o que reduziu investimentos”, disse.

A política de preços de combustíveis foi outro ponto que gerou insegurança, segundo Frischtak. Para 2014 são aguardados leilões para grandes projetos de transmissão, como aquele que vai interligar Belo Monte.

A queda dos pedidos de financiamento no segmento de construção, por sua vez, não indica necessariamente queda nos investimentos, segundo Camargo, da LCA. “O setor bancário já está pronto para financiar projetos de construção, não é praia exclusiva do BNDES.” Para a economista da Tendências Consultoria, Cláudia Oshiro, o mercado de construção civil sofreu piora nas projeções de crescimento para o ano. “No início do ano, nossa expectativa para o crescimento do setor era de 4,2%. Agora esperamos avanço de 2,8%”, disse.

Em relação ao recuo das consultas na área de telecomunicações, Frischtak afirma que o setor elevou seu endividamento em relação à geração de caixa, por isso teve que reduzir investimentos. Já Camargo, da LCA, considerou “esquisito” o recuo nas consultas do setor. “É esperado grande investimento em expansão da banda carga. Além disso, o setor acumulou demanda de melhoria na velocidade, o que também exige investimentos.”

Apesar da retração nas consultas, especialistas consultados pelo Valor afirmam que a grande aposta para investimentos em infraestrutura em 2014 são rodovias e aeroportos. “O investimento em rodovias deve ser alavancado no ano que vem. Depois das mudanças feitas, o governo conseguiu oferecer taxa de retorno mais atraente, o que indica que leilões ainda por vir serão bem-sucedidos”, diz Frischtack.

Também deve ser observada a continuação dos investimentos nos aeroportos de Guarulhos (SP), Viracopos (SP) e Brasília (BSB), e deve ter início os investimentos dos empreendimentos recém-leiloados – Galeão (RJ) e Confins (MG). “Os pedidos de financiamento para os últimos aeroportos leiloados devem começar no segundo semestre de 2014”, afirma Frischtak.

Siffert, do BNDES, explica que a queda nas consultas de um ano para outro não é suficiente para determinar tendência de crescimento ou redução nos desembolsos. “É preciso olhar uma série mais longa. A nossa expectativa para 2014 é de ter volume grande de consultas decorrentes dos últimos leilões.”

Para portos e ferrovias, entretanto, o sucesso nos leilões e, consequentemente, os pedidos de financiamento devem ser sentidos apenas em 2015. Para especialistas, ainda há entraves consideráveis a serem resolvidos. “Minha percepção é que nada vai ocorrer em ferrovias ano que vem. Para portos também há imbróglio significativo: a má qualidade dos projetos formulados, o que gera a percepção de que o governo errou mais uma vez”, afirma Frischtak.

Camargo, da LCA é um pouco mais otimista. Admite a possibilidade de o governo federal conseguir resolver alguns impasses das concessões de ferrovias no primeiro semestre de 2014. Caso isso se confirme, e o primeiro leilão seja organizado, ele espera que os pedidos de financiamento comecem a chegar no banco no segundo semestre de 2014.

“Em relação a portos, é provável que o governo consiga colocar no mercado os terminais de Santos e Pará no primeiro trimestre do ano que vem”, afirma Camargo. Para ele, o governo criou condições concretas para aumentar o financiamento de infraestrutura em 2014. “Tem demanda pronta em energia, rodovia e aeroportos.”

Siffert também é otimista. “A questão das ferrovias está amadurecendo. A tendência é que dois trechos sejam licitados no primeiro trimestre do ano que vem. O fato de o governo federal ter entendido que concessão é uma forma positiva de atrair o investimento privado para projetos de infraestrutura foi correto e vai gerar efeitos no sentido de colocar a infraestrutura como elemento de sustentação do investimento”, prevê o superintendente do BNDES.

Fonte: Valor Econômico de 26.12.2013.

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